A obra está pronta. O controle de qualidade dos materiais foi observado, a qualidade dos processos foi seguida com minúcia, e então é hora de testar o que nenhum processo, selo, ou simulação podem garantir: a qualidade do próprio projeto, do produto final, a casa, o prédio, a loja. Fora da prancheta e do computador, e interagindo com o ambiente e as necessidades dos usuários, a resposta à questão central - valeu a pena? - vai aos poucos sendo desenhada por si mesma.
E é só quando já não podem fazer nada que muitos arquitetos se dão conta de que o trabalho entregue, longe de ser uma obra acabada, se insere em uma rede de relações de uso que vão determinar os parâmetros pelos quais o seu trabalho será avaliado. E eles estão longe, muitas vezes, dos critérios que o próprio profissional usa como medida.
"Acho um erro avaliar escritórios só pelo processo de gestão dos projetos, como se assinar um formulário, o que toma um tempo muito grande e às vezes entra em choque com o processo criativo e gera improdutividade, fosse determinante", diz o arquiteto Henrique Cambiaghi.
Beleza, conforto e capacidade de abrigo mesclam-se, no julgamento, com distribuição de funcionários, custo de manutenção, facilidade de circulação, acesso a estoques, e um conjunto de variáveis mensuráveis em termos de tempo e dinheiro ou apenas sentidas. Antecipar essas interações, levá-las em conta no projeto, adaptar as ideias à necessidade, depende, às vezes, de ferramentas tradicionais: conversa, empatia, flexibilidade e trabalho em equipe para além dos canteiros e do escritório.
"Muita coisa, como a estratégia de marketing, o produto a ser vendido, o tipo de público, o fluxo de pessoas, independe do arquiteto", diz Roberto Novelli Fialho, arquiteto da Nave Arquitetos Associados, que defende a necessidade de ouvir o cliente como o possível portador de soluções e de uma visão global que pode escapar ao arquiteto. "Um cliente do comércio ou da indústria é um profissional e conhece aspectos da realidade daquele mundo que você ignora."
Para Fialho, a qualidade do projeto está ligada à capacidade de o arquiteto trabalhar pensando no "custo da qualidade do espaço", para evitar que uma grande ideia do ponto de vista estético e mesmo funcional acabe comprometida por não se encaixar em fatores como a margem de lucro por produto vendido. Fialho exemplifica com o caso de lojas de roupas em um shopping center, nas quais a distribuição espacial em uma área reduzida tem de atender a várias funções. "É preciso espaço para expor a roupa, um estoque, um local para o cliente experimentar a roupa. Tudo isso gera uma série de circulações, de necessidades de ergonomia, mas você ainda pode aleijar um projeto mesmo se achar uma solução genial para todas essas questões", afirma.
"Quando você trabalha com a arquitetura comercial, o desempenho é muito preso ao sucesso financeiro do projeto", diz Fialho. "O arquiteto é parte de uma equipe multidisciplinar, ele define coisas estruturais, concebe o espaço, mas é questionando e pressionado por diversos agentes, por limitações técnicas, legais, pela identidade da marca, a estratégia de marketing, e será avaliado por sua contribuição nesse contexto."
As restrições crescentes em termos de tempo, espaço, orçamento e regulações, também jogam um papel que impõe desafios à criatividade, mas que, em alguns casos, podem acabar revertidos em favor de uma qualidade maior do produto final, ainda que ao custo de mais trabalho durante o processo de planejamento e execução.
"A legislação está cada vez mais restritiva sobre uma série de aspectos, mas o arquiteto tem de se adaptar, e pensar que em muitos casos essas restrições tornam a própria obra melhor", diz Cambiaghi.
Ele cita como exemplo as regras de acessibilidade, que, ao mesmo tempo em que demandam um esforço específico e limitam o uso de espaços e elementos decorativos, fazem com que haja um ganho de qualidade permanente e tangível ao tornar a obra mais aberta a um público maior e, essencialmente, mais justa.
A ideia é que uma construção pode carregar em si não apenas beleza e utilidade, mas também justiça e inclusão. Raciocínio semelhante se aplica à utilização de técnicas ecologicamente corretas, seja no uso de materiais ou na otimização do uso da luz solar.
Por outro lado, a progressiva diminuição dos espaços aumenta o papel da precisão técnica dos projetos na determinação da qualidade final, diz Cambiaghi. "Em um apartamento com menos de 90 m2 de área, e com dois quartos e um banheiro, qualquer desvio afeta a vida dos moradores", diz ele.
"Ao planejar um banheiro de 1,20 m por 2,20 m, não só é preciso esforço para garantir a funcionalidade, como qualquer desvio na execução compromete todo o trabalho", afirma Cambiaghi, comparando a situação com os apartamentos grandes, nos quais um desvio de 10 a 15 centímetros não seria percebido ou não teria o mesmo peso na avaliação de uma obra.
Ele diz que a busca pela qualidade com foco no usuário, com uso de criatividade, tem de ser entendida como uma premissa mesmo nos projetos considerados menos sofisticados - onde, como consequência, esse cuidado acabe ficando mais evidente.
"Se você fizer um conjunto habitacional com 500 casas iguais, distribuídas de forma ortogonal você vai ter uma relação custo-benefício satisfatória, mas vai criar o problema da sensação de monotonia, e o seu projeto será fadado ao insucesso", exemplifica.
Mesmo em uma função de habitação popular, sempre o arquiteto pode fazer a escolha entre ser mais arrojado e menos arrojado. É possível, garantindo a economia, solucionar o problema da monotonia com um jogo de volumes, arranjos de composição em curva que quebrem aquela sensação desagradável de conjuntos repetidos que são do tempo da régua paralela e do esquadro.
A utilização de pesquisas de pós-uso podem ser bússolas para soluções, e o arquiteto pode ajudar a qualidade de seus projetos em andamento, especialmente os comerciais, ao não se esquecer de que muitas vezes falta na discussão com o cliente uma terceira parte de importância comparável às deles: o usuário. "Em um projeto comercial ele (o consumidor) tem o maior poder", diz Fialho. "Ele tem de estar na discussão, tem de se fazer representar, seja por meio de pesquisas de marketing - embora a gente esteja cansado de ver pesquisas que não dão em nada - da sensibilidade do próprio comerciante ou da capacidade do arquiteto de tornar mais clara uma ideia que esteja pairando na cabeça do cliente a partir de sua experiência."
Embora as recomendações sejam em direção de uma maior sinergia, com integração do projeto em uma estratégia mais ampla, o acúmulo de trabalho nos escritórios, a comunicação apenas à distância e a falta de acompanhamento dos trabalhos acabam pesando contra a qualidade.
"Muitas vezes o arquiteto não visita a obra com frequência por causa do trânsito, porque o cliente não exige e também não paga por isso, e algum mal-entendido no projeto só vai ser detectado quando é tarde e o erro já tinha passado despercebido por todos", diz Cambiaghi.
Mandamentos da qualidade
n Ouça o cliente: ele pode ser portador de soluções e de uma visão global que escapam ao arquiteto, em especial em projetos de comércio e indústria
n Atenção ao custo da qualidade do espaço: para evitar que uma grande ideia do ponto de vista estético e mesmo funcional acabe comprometida por não se encaixar em fatores completamente fora do domínio do projeto, como, por exemplo, a margem de lucro por produto vendido
n Restrições, regulações e legislação podem ser revertidas a favor do projeto, dotando-o de ganhos perenes, caso dos recursos de acessibilidade e de sustentabilidade
n Em projetos de menor área, a precisão técnica torna-se ainda mais crítica
n Não perca o foco no usuário e não dispense a criatividade mesmo em projetos para públicos menos desfavorecidos
n A comunicação é essencial: evite se comunicar com clientes, colaboradores e fornecedores exclusivamente à distância, por meios eletrônicos
n Da mesma forma, sua presença na obra é primordial: tente negociar visitas com o cliente