Desaparece na paisagem o Centro Educativo Burle Marx. Qualquer leitura do lugar leva à certeza de que nenhuma construção pode destoar do verde exuberante dali. E talvez por isso o projeto desse complexo de auditório, salas de aula e ateliês no Instituto Inhotim, museu de arte contemporânea em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, surja da fusão total da estrutura com o entorno.
Com pavilhões distribuídos em um vasto campo de montanhas entrecortadas por lagos artificiais, o Instituto Inhotim precisava concentrar visitantes num centro próximo da entrada, que receberia grupos escolares e pesquisadores do acervo. Em contraste com as galerias de arte do museu, todas as construções estanques que isolam os espaços internos dos externos - exigência de programas expositivos - o centro educativo se integra de forma dócil à paisagem.
"Tinha uma ânsia de fazer o prédio desaparecer um pouco", conta a arquiteta Paula Zasnicoff, responsável pelo projeto junto com Alexandre Brasil, do escritório Arquitetos Associados. "A gente quis que o edifício não fosse monumental e parecesse como partido do museu, por isso a gente fez tudo horizontal."
Nesse expediente camuflado, um declive leva a um anfiteatro logo na entrada, que se dá numa espécie de abrigo coberto. É prelúdio às varandas que abraçam a estrutura. Toda a circulação se faz pelo lado de fora, em contato mais próximo com a mata e o lago ao redor. "É um programa diferente do de uma galeria de arte, onde ou você está dentro ou está fora", compara Zasnicoff. "Esse acolhimento é todo aberto, mais convidativo."
Convida, de fato, ao movimento. Primeiro uma descida de leve ao nível da construção, depois a circulação externa, que estreita o contato com a paisagem. Reforça essa impressão o fato de toda a estrutura se erguer sobre as águas de um lago, fazendo do complexo uma ponte entre dois pontos distintos do museu. "A gente tinha um terreno muito pequeno e surgiu essa ideia de fazer um prédio avançando em cima do lago", conta Zasnicoff, acrescentando que a expansão da construção sobre o lago também evitou verticalizar o programa, para que não destoasse demais da paisagem. São territórios ganhados da água que também passam a integrar o percurso de transição da entrada para as galerias de arte.
Na construção, drenaram o lago para construir as fundações do prédio. São pilares circulares que sustentam as três lajes do piso e que coincidem, aliás, com a divisão do programa interno: biblioteca, auditório, salas de aula e ateliês. "A fundação é dentro da água", diz Alexandre Brasil, "mas é uma estrutura convencional: uma grande laje de piso suspensa e depois uma laje de cobertura".
São as duas lajes e seus pilares que respondem, de fato, por toda a sustentação do complexo. Nos espaços internos, divisórias de alvenaria não tocam o teto. São paredes sem caráter estrutural que terminam antes de alcançarem a laje; nesse ponto, são arrematadas por lâminas de vidro, exacerbando o aspecto vazado da construção.
"O que chega até o teto é sempre um vidro, nunca uma parede", diz Alexandre Brasil. Toda a construção do Centro Educativo Burle Marx enfatiza, dessa forma, a independência do programa interno da estrutura geral do complexo. Esse recurso, somado à circulação externa por largos corredores à laje, que faz o papel de ponte e ao uso do vidro nas fachadas, ainda permite que todo o complexo seja permeado de luz.
Visto de fora, o centro educativo chama a atenção pela horizontalidade acentuada, planos ortogonais que percorrem sem sobressaltos a placidez do lago sob a estrutura, como um espelho d'água gigantesco refletido em concreto e suavizado pelo uso de vidro nas fachadas. Mas como o programa exige ambientes fechados, Zasnicoff e Brasil optaram por fachadas vítreas transparentes e opacas. Evitando uma quebra na harmonia das faces externas, instalaram um brise-soleil ao longo de toda a área externa - uma estrutura horizontal uniforme, que ameniza disparidades do programa interno que possam transparecer na fachada.
"Não tinha o desejo de uma fachada específica", conta Zasnicoff. "Todas essas fachadas que fazem a sala de aula e a biblioteca são tratadas da mesma maneira." Sobre o brise-soleil, a arquiteta acrescenta que também ajuda a manter a horizontalidade da construção ao camuflar o pé-direito de quatro metros, que acaba ficando, em parte, coberto. Mas é certo que o uso do brise-soleil tem funções de conforto térmico e serve para o controle da luminosidade, ainda mais quando toda a circulação do complexo é feita pelo lado de fora, por varandas.
Também ajuda a melhorar iluminação e ventilação a construção do complexo ser em forma de "U", o que formou um pátio interno entre os dois braços do Centro Educativo Burle Marx. A água do lago avança nesse interstício e refresca ainda mais os espaços, permitindo, ao mesmo tempo, a entrada de luz, rebatida na superfície da água. "A separação nítida do programa consegue levar iluminação para todas as salas e criar esse pátio com o lago que já existe", explica Zasnicoff. "Tem ventilação cruzada nas salas e uma integração maior com o paisagismo."
Nesse ponto, o projeto de Zasnicoff e Brasil tem raízes claras no brutalismo paulista, de Vilanova Artigas. Não bastasse o aspecto ortogonal e horizontal, o fato de ser toda vazada a estrutura e exacerbar o movimento de um ponto a outro do museu, o complexo ainda torna o vaivém de visitantes um espetáculo reservado às varandas externas. Lembra sem exagero a estrutura construída por Artigas para a rodoviária de Jaú, no interior de São Paulo.
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