Há cerca de três anos escrevi para AU um relato sobre o congresso realizado pela eCAADe (Education and Research in Computer Aided Architectural Design in Europe) em Volos, Grécia, (AU 152, novembro de 2006) no qual o centro do debate girou em torno das profundas mudanças de paradigma proporcionadas pela utilização intensiva da tecnologia digital no processo de concepção e desenvolvimento dos projetos de arquitetura e afins.
Intitulado Estado da arte, o artigo trazia relatos de casos nos quais a utilização avançada da tecnologia digital ia muito além de um mero instrumento sofisticado de representação de ideias para assumir o papel de protagonista do processo criativo por meio de aplicações inusitadas, como a utilização de animações e modelagem topológica digital no processo de concepção formal e, mais além, do uso de algoritmos como geradores da forma.
Na ocasião, ressaltamos que a utilização associada da tecnologia CAD (Computar Aided Design) e CAM (Computer Aided Manufacturing) em arquitetura, por meio de máquinas de prototipagem rápida (CNC), de resto uma prática há muito consagrada nas indústrias aeronáutica, automobilística e de navegação, estava possibilitando a emergência de uma nova tendência que denominamos Arquitetura Digital, emprestando o termo do quadro teórico desenvolvido pela arquiteta e pesquisadora do Technion Institute of Technology, de Israel, Rivka Oxman. Numa palavra, o assim chamado CAAD - Computer Aided Architectural Design.
Índice de utilização de ferramentas digitais conforme a fase do projeto
A partir daí interessou-nos saber em que patamar se encontrava a aplicação desse conhecimento entre nós e, para tanto, decidimos realizar uma pesquisa junto aos escritórios de arquitetura brasileiros. Trabalho que, por questões operacionais, limitou-se em um primeiro momento aos escritórios de arquitetura paulistanos, servindo como um projeto piloto.
Contando com o apoio do Fundo Mackpesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Sinaenco, da AsBEA e do IAB, conseguimos fazer um interessante levantamento da realidade de 104 escritórios que atuam na cidade de São Paulo, o que indicou uma situação paradoxal: de um lado a pesquisa demonstrou que os profissionais que efetivamente atuam no mercado estão bastante atualizados em termos de hardware e software mas, de outro lado, fazem um uso bastante conservador e ortodoxo dos recursos de que dispõem, praticamente limitando-se a utilizar a tecnologia digital para a otimização de sua produção pela automatização de processos.
Uma utilização que, no quadro teórico proposto por Oxman, corresponde apenas ao primeiro patamar da transição dos meios tradicionais de produção da arquitetura para a tecnologia digital. Uma etapa já superada, quando consideramos o estado da arte dessa tecnologia.
A pesquisa começou a ser preparada em 2007 e foi aplicada ao longo de todo o ano de 2008. O universo tomado como referência foi o cadastro das empresas de projeto no Sinaenco, registradas sob o código CNAE (Cadastro Nacional de Atividades Econômicas) no 7111-1/00 do Imposto de Renda, que corresponde à atividade de arquitetura e resultou, à época, em uma listagem de 1.188 empresas cadastradas.
A partir daí, foi elaborado um questionário composto por quatro grupos de questões que procuraram identificar: a qualificação do escritório, o inventário das instalações e recursos digitais, as aplicações da tecnologia digital nos projetos e a identificação (voluntária) do escritório. Esse questionário foi preliminarmente enviado a dez profissionais como teste piloto e, em seguida, já incorporando os ajustes e modificações sugeridos, publicado no portal de pesquisas SurveyMonkey (www.surveymonkey.com).
Por meio do mailing das entidades que nos apoiaram, convidamos os escritórios que compunham o universo da pesquisa a visitar o site e responder às questões, que permaneceram disponíveis durante o período de 26 de agosto de 2008 a 5 de fevereiro de 2009. Encerrado esse período, procedemos à tabulação e interpretação dos dados obtidos, encontrando algumas respostas reveladoras.
Resultados
Verificamos, por exemplo, que os escritórios de arquitetura paulistanos utilizam recursos de tecnologia digital praticamente em todos os passos do processo de produção dos projetos, sendo majoritariamente na produção do Projeto Básico (97,1%), Estudo Preliminar, Anteprojeto e Projeto Executivo (95,6%), seguidos pela elaboração dos Memoriais, Planilhas (89,7%) e Projetos Legais (86,8%). Com menos intensidade, na Concepção do Produto (73,5%) e nos Estudos de Viabilidade (67,6%). Informação que se confirma quando cruzada com a resposta à questão sobre os recursos utilizados na concepção do partido, em que 89,7% indicaram que ela acontece com o uso de croquis.
Identificamos também que nos Estudos de Viabilidade destacam-se os aplicativos Sketch Up livre e Pro (33,82), o AutoCAD (30,88%), MS Word (29,70%) e Excel (27,94%), que certamente se completam nas tarefas de modelagem, estudos geométricos e produção de textos e tabelas. Nesse sentido também aparecem indicados os software Photoshop e Corel Draw como apoio às ilustrações. É interessante observar que o software BIM Revit Architecture já aparece indicado nessa fase com a mesma pontuação isolada do Sketch Up Pro (11,76%).
Na etapa de Concepção do produto, o AutoCAD impõe-se com 52,94% das indicações, bem acima dos 36,76% do conjunto Sketch Up livre e Pro, demonstrando que essa etapa obedece, majoritariamente, a certa rigidez geométrica, muito mais característica do AutoCAD do que do Sketch Up. É interessante observar também que nesta etapa o Photoshop (20,59%) e o 3DStudio MAX crescem em importância (14,70%), alternando-se com o Excel (10,29%), demonstrando que a produção de desenhos, ilustrações e imagens é mais relevante aqui do que a produção de dados quantitativos.
Foi instigante constatar uma indicação isolada de utilização de máquina de prototipagem rápida CNC na etapa de Estudo de Viabilidade e que 1,9% explicitaram a utilização de gramática formal (Shape Grammar) na concepção de seus projetos.
Dado significativo também foi a constatação de que a maioria das empresas que responderam ao questionário possui de um a três arquitetos, além do titular, envolvidos diretamente na produção e dispensando, em boa parte, o trabalho de projetistas e estagiários.
Um contraste com o cenário pré-digital, no qual predominavam técnicos de grau médio e eventualmente estagiários, revelando uma mudança qualitativa no processo de produção que pode ser vista por dois ângulos distintos: é possível afirmar que a automatização de diversas tarefas implicou uma mudança nas necessidades da função, agora mais focadas em aspectos de decisão do que de produção de desenho; e que implicou uma mudança no papel do arquiteto, agora também envolvido na produção dos documentos técnicos que compõem o desenvolvimento dos projetos, além da coordenação dos trabalhos. Em outras palavras, tudo indica que as funções de arquiteto e projetista fundiram-se numa só, somando capacidade de decisão e de produção numa só atividade.
A amostra indica também que, ao contrário da era pré-digital, o grande contratante encontra-se hoje na iniciativa privada, o que, por sua vez, indica que a lógica do mercado na formação dos preços do trabalho executado (produtividade x custos e negociação) predomina sobre o uso das tabelas das instituições profissionais.
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