Pressionado por prazos incríveis de dezenas de projetos para a Telebrás, eu me desesperava ao ver que em todos os desenhos tínhamos de escrever, em cada dependência, a normógrafo (lembram?), "parede revestida de azulejos até o teto", "piso de placas de cerâmica 30 x 30 marca barbante" e assim por diante até enlouquecer. Imaginei que se inventássemos um código em quadrados, círculos e triângulos para pisos, paredes e forros e numerássemos as diversas opções, economizaríamos um tempo enorme. Hoje todo mundo pensa que esse processo nasceu de geração espontânea.
Venho pensando o quanto o trabalho de desenvolvimento de um projeto e o raciocínio espacial de um arquiteto é um processo imensamente abstrato. De tudo que aprendemos em matérias técnicas no ensino médio, no cursinho ou na faculdade, no dia a dia usamos alguns (pouquíssimos) conceitos de física, um pouco de matemática simples e muita, muita, muita geometria. E é a capacidade de interpretar e conceber formas geométricas diversas, sem às vezes desenhar um só traço, que permite a alguns (muitos) arquitetos criar formas e espaços que um leigo jamais imaginaria.
Um passo extraordinário para o entendimento dos projetos por leigos surgiu com os programas de computação gráfica, assim como o CAD, criado para desenhos mecânicos, revolucionou o arquitetônico e vai aos poucos ser substituído pelos sistemas BIM.
No início da carreira tive de resolver um projeto imobiliário residencial de 100 mil m² para um conjunto que dava para duas ruas, sobre um platô 15 m abaixo da primeira rua e 36 m acima da outra e no qual tinha (naturalmente) de obter a área máxima e ao mesmo tempo respeitar os recuos, a taxa de ocupação e o gabarito! Uma questão arquitetonicamente impossível e recordo-me de ter recorrido aos conhecimentos de cursinho e usado derivada (!) para resolver o problema. Agora penso na abstração que isso representa.
As extraordinárias formas que atualmente vemos, notadamente de Frank Gehry e Santiago Calatrava, só são possíveis com sistemas avançadíssimos de computação e de execução de maquetes físicas feitas por máquinas compatíveis com esses sistemas. E dizer que Peter Rice, com 23 anos, calculou a Ópera de Sydney utilizando computadores de menor capacidade que um PC (!) ao ter a notável intuição geométrica/matemática de que, para transformar as curvas da cobertura em equações, seria necessário imaginá-las como sendo todas secções de uma mesma esfera. Rice faz lembrar o extraordinário raciocínio espacial de Gaudi ao montar suas pequenas maquetes com pesos e espelhos para determinar os esforços em suas "simples" estruturas.
A propósito dos programas de Frank Gehry, há algum tempo executei um pequeno projeto para a Embraer e me foi solicitado utilizar o programa Catia, que custa 135 mil dólares por unidade! A exigência foi cancelada, pois além de inútil, o valor do projeto era uma fração do valor de um programa. Mas compreensível a exigência: os aviões são projetados em Catia e eles queriam usar o mesmo programa...
A abstração da arquitetura e a dificuldade do entendimento das plantas pelos clientes, que às vezes as viram de cabeça para baixo, me recorda a pintura abstrata. E se é assim, como convencê-los a nos entender, a nos dar prazo, a nos pagar corretamente, pois jamais imaginam que um arquiteto não é um gênio sozinho, e que necessita de uma enorme equipe e estrutura empresarial que deve ser remunerada corretamente?
A razão é simples: para todos, a nossa atividade é abstrata e só se torna concreta quando concluída, mas aí o nosso trabalho já foi abstratamente remunerado. De concreto, para o cliente, restam às vezes algumas vigas concretinas em 80 m de vão e muitos metros de altura sobre paredinhas de alvenaria. Não entenderemos jamais a razão estética (porque não há mesmo) nem o custo. É tudo muito abstrato.
P.S. Alguém se lembra de uma introdução para um filme feita sem computador (West Side Story ou North by Northwest) de Saul Bass em que uma infinidade de linhas se juntam até formar o edifício-sede da ONU?
Pois é abstrato por fora e abstrato por dentro.