As experiências com o Pan e com a organização do mundial de futebol em 2014 tornarão mais eficientes as preparações do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016? Colaborou Giovanny Gerolla
Todos esperam que seja tomado o caminho de Barcelona quando da preparação para os Jogos Olímpicos de 1992, mas sempre paira a sombra de Atenas, que por pouco não cumpriu os prazos em 2004, e de Montreal, que levou 30 anos para pagar a conta dos jogos de 1976. Há também o trauma do próprio Pan de 2007 a assombrar a organização de megaeventos esportivos no Brasil. Será que a experiência com o Pan e a Copa do Mundo vão conduzir planejadores, poder público e empresariado a um trabalho de excelência na aplicação dos mais de 28 bilhões previstos para investimento no Rio 2016?
José Trajano, diretor de jornalismo da ESPN Brasil
O Pan foi traumático para o Rio de Janeiro e não impulsionou um incremento do esporte em sua base mais abrangente, popular, do esporte na escola. Para o mundial de 2014, a discussão que se faz é sobre o atraso: onde estão os projetos e quando começarão as obras? O importante, para 2016, é que não se repitam esses mesmos erros. Esperamos que os jogos olímpicos do Rio de Janeiro tragam resultados concretos e positivos para a cidade, além das discussões políticas. A diferença principal é que, com toda a maravilha da euforia e do prestígio internacional que o Brasil tem no momento, setores da sociedade, a imprensa e as ONGs cobrarão mais transparência e eficiência nos preparativos para os jogos. É preciso não só observar as falhas do Pan e os atrasos para a Copa, como também cuidar da cultura do esporte, com políticas nacionais abrangentes de acesso democrático à prática desportiva. O alto rendimento e as medalhas são para muito poucos.
Luiz Fernando Santos Reis, presidente do Sinicon (Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada)
A Olimpíada poderá ser um marco de modernização na cidade do Rio de Janeiro. Para isso é importante que os investimentos sejam muito bem planejados. No Pan-americano, os investimentos se concentraram na construção dos equipamentos esportivos, que serão utilizados na Olimpíada. O Maracanã, que será o palco de abertura e fechamento do evento, será modernizado para a Copa de 2014. Portanto, restará ao governo se concentrar em mobilidade urbana, saneamento e segurança, garantindo aos cariocas que se beneficiem do legado.
Roberto Kauffmann, presidente do Sinduscon-RJ
A rigor, a experiência na organização do Pan já serviu para aprendermos que, nos preparativos para a Olimpíada, será necessária a integração das três esferas de governo - municipal, estadual e federal - ao setor privado, o que de fato já vem ocorrendo para o mundial de futebol. A eficiência do processo tende a aumentar, uma vez que muitas ações serão coincidentes para os dois eventos, tanto o de 2014 quanto os jogos de 2016. Até agora não tomamos conhecimento sobre os detalhes do que foi apresentado ao COI (Comitê Olímpico Internacional). Foi divulgado apenas que os custos seriam da ordem de 28 bilhões de reais, sendo dez bilhões para a construção civil - cinco bilhões em infraestrutura urbana, três bilhões em hotelaria (dez mil quartos) e dois bilhões para obras dos complexos esportivos - a serem gastos nos próximos cinco anos, com a criação de cerca de cem mil empregos no setor. Os 18 bilhões restantes deverão ser destinados à segurança pública, aquisição de equipamentos de transporte, organização do centro de imprensa com toda a tecnologia de telecomunicações e preparação de mão de obra para todas as necessidades.
Fabiano Angélico, coordenador de projetos da Transparência Brasil
O trabalho de excelência na aplicação dos recursos poderá acontecer, mas isso dependerá da atuação de todos nós. Voluntarismos são absolutamente necessários, mas não suficientes. Esperamos que os principais atores da sociedade - imprensa, ONGs e entidades representativas - se preparem para os próximos sete anos, o que inclui reforço em áreas de conhecimentos contábil, jurídico e midiático. É preciso compreender com clareza os projetos propostos e acompanhar a aplicação dos recursos na concretização desses projetos; entender a execução orçamentária, conhecer algumas leis e, eventualmente, saber como transmitir mensagens. Enfim, acredito que será importante adotarmos uma postura vigilante, o que poderá significar uma atitude colaborativa, mesmo que acarrete situações de atrito. Só teremos uma boa aplicação dos recursos, sejam eles públicos ou privados, se a sociedade estiver alerta e preparada para encarar boas brigas.
Luiz Eduardo Indio da Costa, arquiteto
Certamente as experiências passadas minimizam a margem de erro das subsequentes. O PAN e a Copa do Mundo são eventos diferentes das Olimpíadas. Os jogos olímpicos têm um compromisso formal de deixar um legado para a cidade. A oportunidade para resolver problemas básicos como deficiências em transportes e equipamentos esportivos não poderia ser melhor. Espero que os planejadores (o poder público e o empresariado) saibam aproveitá-la. O caminho da excelência e da qualidade dos projetos arquitetônicos passa por concursos públicos nacionais ou mesmo internacionais, já que esses não serão projetos de rotina. Todas as outras cidades que sediaram olimpíadas percorreram esse caminho para encontrar soluções inovadoras e impactantes.