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Crônicas Agudas


Sergio Teperman escreve sobre a contratação de arquitetos estrangeiros
Um Swissidio profissional

Por Sergio Teperman


Li no Estado de S. Paulo que o juiz encarregado de analisar a ação popular movida pelo Sinaenco e apoiada pela AsBEA contra a contratação do Herzog & De Meuron para o projeto do Teatro de Dança de São Paulo arquivou o processo. É uma pena. É uma pena não o arquivamento da ação, mas a questão de ela ter sido empreendida. Ou até o não prosseguimento da questão, porque poderíamos discutir questões relativas às nossas contratações.

É uma total surpresa a maneira como o assunto foi enfrentado (uma ação popular em lugar de uma discussão), e a forma com que foi defendido (ou melhor, atacado). Uma vez tomada essa decisão pelo governo do Estado é totalmente sem sentido criticá-lo por:

1) Pagar honorários considerados elevados a um escritório, seja ele nacional ou estrangeiro. Minha gente, que raios ora pois, pois, faz um sindicato que critica uma contratação porque os honorários são elevados? Não passamos a vida discutindo com os órgãos públicos pelos ridículos e sub-subdimensionados honorários que nos pagam? Parece-me tão claro simplesmente argumentar: ótimo, agora queremos tratamento igual.

2) Como criticar a contratação de estrangeiros, se nosso governo e nós mesmos nos empenhamos em obter projetos no exterior (não é fácil obtê-los nem executá-los, por experiência própria), e como nos vangloriamos e divulgamos os bons projetos que nossos arquitetos fazem em outros países?

3) Todos já conhecem a minha posição sobre a verdadeira extorsão que se aplica aos escritórios de arquitetura, com a oferta de serviços por concursos não remunerados aos participantes. Um sindicato e uma associação profissional que advogam esse tipo de "contratação" não estão defendendo seus associados e sim os atacando, ao propor que trabalhem de graça na expectativa de um resultado lotérico.

4) E igualmente terrível é a famigerada lei das licitações para contratação de projetos de arquitetura, em que se julga técnica e preço, mas que na verdade é só preço, ou mesmo concorrências em que o único item é preço. E claro, não são só os profissionais os prejudicados, é toda a sociedade que recebe projetos terríveis, com obras vergonhosas e orçamentos fictícios baseados em projetos básicos, tão básicos quanto os pretinhos das mulheres.

Não entendo como combater a contratação de profissionais excelentes como Herzog/De Meuron ou François de Portzamparc. Entendo, sim, que deveriam obedecer às mesmas condições legais e burocráticas que enfrentamos (e só as aceitariam pelos maravilhosos e justos honorários que recebem), como ART, ISS, INSS, FGTS, PIS, IRF, IPTU, PT, PQP etc.

Considero, por outro lado, absolutamente normal que uma autoridade use um excelente aparelho que, além de possibilitar namoros e outras atividades, permite ótimas contratações: o telefone (apesar de servir também para aporrinhações como SAC e telemarketing).

Entendo como corretíssimo contratar um profissional de confiança, desde que qualificado, sem recorrer a concursos, licitações e outros processos espúrios.

Na cidade e Estado de São Paulo, inúmeros projetos de impacto são contratados pelo governo de forma direta (ainda que disfarçada) com profissionais de renome, seja por pertencerem a grupos, por questões pessoais, políticas, genéticas, patrimoniais, históricas ou até arquitetônicas.

O resultado, desde que além desses requisitos os contratados sejam bons arquitetos, é muito melhor que qualquer outro meio de seleção. Se analisarmos as contratações em São Paulo, veremos que esse democrático processo é utilizado, os arquitetos muitas vezes são os mesmos e os resultados bastante razoáveis.

Há apenas uma hipocrisia quando não se reconhece que esses processos são utilizados, e se solicitam meios "democráticos", "transparentes" e "republicanos" (palavras da moda) de contratação, para os outros.

Vamos parar de tapar o sol com a peneira e passar a exigir não necessariamente meios "democráticos" de contratação, mas meios justos, honestos e eficientes nos resultados e corretos no dimensionamento, execução e pagamento dos serviços, como certamente os arquitetos estrangeiros o exigem.

Aqui os contratantes dizem, como se fosse uma condescendência: "Eu te dei um projeto", enquanto os americanos dizem "I hired you" (eu te contratei), o que significa obrigações e responsabilidades de ambas as partes.

Se continuarmos com questiúnculas jurídicas, tribunaldecontastas, políticas, et coetera e tal, jamais teremos aqui um projeto extraordinário como o Ninho de Pássaros. Quando muito, o Ninho de Pássaros será engolido por um Ninho de Cobras.

 
   
 
 
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