José Augusto Nepomuceno escreve dez anos da Sala São Paulo A acústica da Sala São Paulo
Por José Augusto Nepomuceno
O piso técnico, com os dutos de ar condicionado e as máquinas do forro móvel
A Sala São Paulo foi um divisor de águas nos projetos de espaços de apresentação no Brasil. Finalmente, o projeto de um teatro foi organizado e coordenado colocando o programa, a acústica e a tecnologia teatral no topo das prioridades. Hoje, a Sala São Paulo é a principal sala de concertos do Brasil, e uma das referências atuais de qualidade acústica no mundo. O sucesso da Sala não resulta do mérito de um protagonista, mas da convergência de forças na hora e no local certo: John Neschling, um maestro obstinado que exigia uma sede com excelência acústica para a Osesp, o governador Mário Covas e o secretário de cultura Marcos Mendonça com entusiasmo e decisão política, e mais uma equipe multidisciplinar, com profissionais brasileiros e estrangeiros, que foi mantida coesa sob a coordenação de Ismael Solé. O engenheiro Mário Garcia, raramente citado, foi o entusiasta de primeira mão e um "padrinho" do projeto.
A Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) após 45 anos ganhou uma sede à altura de seu talento, e alcançou patamar de excelência internacional. As orquestras brasileiras passaram a se mirar nesse exemplo, reivindicando espaços com condições sonoras apropriadas. Não é por acaso que as principais orquestras do mundo estão ligadas à acústica de suas sedes: a Orquestra de Cleveland e o Severance Hall, a Filarmônica de Berlim com a Philarmonie, a Sinfônica de Boston e o Symphony Hall, a Filarmônica de Viena e o Musikvereinsaal, entre outras.
Nesses dez anos muito foi escrito sobre a Sala - em jornais, revistas, teses e livros. Como complemento a esses registros, parte da minha memorabilia do projeto está nessas notas.
A Sala São Paulo foi projetada no antigo jardim interno da Estação Julio Prestes, e possui formato de caixa de sapato
A Descoberta do Local
A missão de avaliar teatros existentes em São Paulo para servir de sede da Osesp coube ao engenheiro e maestro norte-americano Chris Blair. Em dezembro de 1996 ele visitou o Memorial da América Latina, o Sérgio Cardoso, o São Pedro, entre outros - e todos foram descartados por não reunir nem infraestrutura, nem as condições acústicas adequadas para música sinfônica.
Em um passeio não programado pela Estação Julio Prestes, Chris notou as semelhanças das dimensões do jardim interno com as salas conhecidas por caixa de sapatos. E assim, por acaso, foi descoberto o local onde seria construída a sede da Osesp.
O reconhecimento da excepcional qualidade sonora das salas sinfônicas com essa geometria é um dos principais avanços da acústica arquitetônica contemporânea. Daí o imediato entusiasmo com o jardim. Elas têm atributos acústicos notáveis: a distribuição uniforme de som em todos os lugares, a mistura das várias seções da orquestra em um corpo único, e a sensação de envolvimento no campo sonoro reverberante. Os pontos negativos são: a distância de algumas poltronas do palco, algumas linhas de visão que não são excelentes e um pouco menos de clareza que o desejado para determinados tipos de repertório.
As salas não retangulares como a Philarmonie (Berlim), a Walt Disney Hall (Los Angeles) ou Saint Davis (Cardiff, Inglaterra) mantêm uma relação de proximidade física entre a orquestra e o público, mas a resposta acústica varia muito entre diferentes locais na plateia, e o envolvimento sonoro deixa a desejar. Já as salas em forma de leque aberto e simples são acusticamente indesejáveis para música sinfônica.
Partida do Projeto e Coordenação
O projeto da Sala iniciou em março de 1997 e a equipe encarregada para dar a sua partida era formada por Ismael Solé na coordenação geral do projeto e dividindo a tecnologia teatral com Michael Mell, Chris e eu na acústica. Até o início de maio de 1997, essa foi a equipe encarregada das diretrizes e do programa do projeto (incluindo a posição do palco e plateia, e seus acessos principais), a configuração da plateia, os fundamentos acústicos do projeto (inclusive o forro móvel), os conceitos gerais para implantação do sistema de ar condicionado etc.
Em meados de maio de 1997 outros profissionais se uniram ao time inicial, como Aníbal Knijik na estrutura, Nelson Dupré na arquitetura e restauro e Sérgio Moraes no ar condicionado. Todos tinham como norte incorporar e desenvolver as diretrizes técnicas em seus projetos.
À coordenação coube compatibilizar as necessidades e as enormes dificuldades enfrentadas pelas equipes na empreitada: prazo reduzido, instalações em um prédio histórico, diretrizes acústicas incomuns, a novidade do tema, coordenar profissionais brasileiros e estrangeiros habituados com abordagens diferentes de desenvolvimento de projeto.
Reuniões regulares entre as equipes de projeto e os consultores garantiram permanente diálogo técnico e atualizações de cronogramas. A Osesp era igualmente consultada e participou de inúmeras decisões de projeto.
Forro Móvel e Ajuste Acústico
Os conceitos de acústica ajustável em salas de música não são novidade, e ganharam força definitiva nos anos 80. Atualmente, todas as salas sinfônicas importantes no mundo têm algum tipo de ajuste acústico, com menor ou maior grau de flexibilidade.
A Sala São Paulo está construída onde era um jardim aberto ao céu. Claro que para ali construir uma sala sinfônica era preciso um fechamento superior. Pensando no necessário fechamento e na importância da acústica variável, Chris concebeu e propôs o forro móvel, o elemento mais emblemático da Sala.
Na concepção inicial o forro tinha vários painéis de diferentes dimensões. No desenvolvimento, Solé definiu painéis maiores e de tamanhos iguais, melhorando o sistema de motorização e comando. O forro móvel é composto por 15 módulos pesando aproximadamente 7,5 toneladas cada, sendo nove centrais - que se movem independentemente, e seis laterais - para movimentos simétricos no lado esquerdo e direito. Esse é um dos inúmeros exemplos das trocas de experiências em altíssimo padrão técnico que caracterizou as atividades de projeto.
Antes, e até simultaneamente ao projeto da Sala, outros utilizaram forros móveis parciais ou totais. Na Sala a ousadia vai além: dependendo da posição dos painéis é possível variar o volume da plateia ou acoplar acusticamente o volume do entreforro com o da plateia. Esse efeito conhecido por "duplo decaimento sonoro" busca conciliar o conflito entre clareza e reverberação, existente em salas com acústica fixa. A potência dos ajustes pode ainda ser sintonizada com bandeiras acústicas instaladas no entreforro, e que são acionadas por mecanismos situados no piso técnico.
Na equipe de acústica apresentamos o forro móvel como uma ferramenta de afinação da Sala. Essa expressão motivou a ideia entre técnicos, visitantes e até mesmo estudantes que deveriam ser testadas inúmeras combinações. Embora tecnicamente viável, é um exercício frustrante e com mínimo impacto na escuta musical.