Com softwares BIM cada vez mais importantes no dia a dia de alguns escritórios, como estará, em um futuro próximo, a prática projetual: os arquitetos irão utilizar apenas softwares 3D? A novidade pede mudanças na forma de projetar? Qual o futuro dos softwares dentro do escritório? A equipe de AU fez esses questionamentos a arquitetos e especialistas. Confira a opinião deles.
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Francisco Segnini Junior, professor do departamento de Tecnologia da Arquitetura da FAUUSP |
Acredito que os arquitetos continuarão a usar o velho croqui, como sempre fizeram. A cabeça é muito mais rápida que qualquer computador, e a arquitetura é emoção. É lógico que, para projetar, você tem de acumular conhecimento arquitetônico, aprender. Mas o salto criativo está na cabeça, e nenhum instrumento ou ferramenta vai dar conta disso. Softwares BIM podem ser compreendidos como uma lapiseira mais eficiente. Isso porque o processo de criação é muito mais complexo, e os programas não dão conta. É como escrever um texto: por mais que haja um programa- corretor, e por mais que não se consiga abdicar às novas tecnologias, o programa não nos ajudará a criar o texto. O espaço projetado está na cabeça - se eu não domino o espaço, o instrumento não serve para nada. Às vezes, o projeto sai em uma hora que não estamos trabalhando nem na frente do computador.
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Eduardo Nardelli, arquiteto e professor da Universidade Mackenzie |
Os arquitetos não apenas projetarão em 3D como deixarão de "representar" ideias para "construir" modelos virtuais de seus edifícios, porque os chamados softwares BIM (Building Information Modeling) trabalham com metáforas de arquitetura e não apenas com geometrias. Em outras palavras, quando se utiliza a tecnologia BIM, o arquiteto não desenha figuras geométricas que representam paredes, portas, caixilhos etc., mas utiliza objetos virtuais que trazem embutidas as características desses elementos construtivos, o que é essencial para o funcionamento do conceito BIM. Isso supõe que o sistema seja capaz de entender os elementos simulando, inclusive, o seu comportamento, dados quantitativos e qualitativos, como a capacidade de absorção acústica de um acabamento de piso, o índice de isolamento térmico de determinada parede e assim por diante, de modo a permitir a simulação do desempenho do edifício como um todo. Isso permitirá antecipar e aprofundar decisões de projeto, como um teste de protótipo, implicando profunda mudança na metodologia e processo de criação e desenvolvimento de projetos, além de exigir uma revisão nas grades de formação de novos arquitetos e reciclagem de profissionais que já atuam na profissão, ainda lançando mão da épura.
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Siegbert Zanettini arquiteto e professor da FAU/USP |
A arquitetura é tridimensional. No meu escritório os projetos são concebidos tridimensionalmente e não apenas com o uso de programas computadorizados, mas principalmente por esboços, croquis ou desenhos. Quando lançamos o conceito aos arquitetos que ainda não têm o domínio espacial do projeto, recomendamos que utilizem as novas ferramentas em 3D.
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Edison Lopes, arquiteto e sócio da Orbi Arquitetura |
Vejo duas possibilidades: na primeira, modeladores que nos permitem decompor formas complexas em elementos simplificados e industrializáveis; numa segunda, nós, arquitetos, temos à nossa disposição um simulador de obra (como um simulador de vôo), e essa tecnologia nos permite, ao menos virtualmente, voltar ao canteiro. Não apenas projetando os espaços tridimensionalmente, mas definindo e testando os sistemas e métodos construtivos que se tornarão reais após serem ensaiados e validados. Abre-se uma nova fronteira onde se projeta o quê, o como, o quanto e o por quanto. Certamente, uma profunda alteração do processo criativo e do próprio arquiteto.
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Sergio Teperman, arquiteto |
Os programas BIM eram o futuro do desenho de arquitetura. Agora já estão se tornando o presente. No entanto, falta a integração com o conjunto das disciplinas que compõem um projeto de construção. Quais são os empecilhos? O tempo e o custo do aprendizado, além do custo dos programas, muitíssimo elevado, e o fato de fornecedores exigirem um software para cada máquina - sem dúvida, o campo mais fértil que se possa imaginar para a indústria da pirataria.
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Affonso Orciuoli, arquiteto e professor de design e fabricação por computador, Barcelona. Sócio da MedioDesign, laboratório de pesquisa, inovação e projetos com uso da informática |
Acredito que os softwares BIM, que introduzem a parametria, estarão cada vez mais presentes nos escritórios, devido à facilidade na documentação e administração de projetos de arquitetura, sobretudo os de grande porte. No Brasil, ainda se discute o abandono do lápis e da prancheta, e a introdução dos computadores, com claros indícios de resistência a essa nova e promissora prática de projeto. Parece-me, contudo, urgente que exista uma abertura às novas tecnologias. Não podemos negar o poder de cálculo e a rapidez proporcionados pela informática para tarefas muitas vezes repetitivas e tediosas. O computador, enfim, poderá auxiliar o arquiteto também na tomada de decisões - e ele sempre projetou em três dimensões. A parametria, o scripting, a modelagem avançada e a vinculação de seus projetos a novas formas de fabricação são vanguardas importantes desse começo de século. E não significa abandonar o desenho à mão. Basta encarar o computador como um sócio do escritório - e não como um simples desenhista.