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Crônicas Agudas

Sergio Teperman: por que montar uma Bienal de Arquitetura?
O rabo puxando o cachorro

Por Sergio Teperman


O principal interesse de uma exposição deveria ser a sua visitação. O prédio da Bienal (e aí já vai um erro enorme, o prédio deveria ser centro de exposições e não pertencer a um clã da Bienal de Arte) poderia até abrigar uma exposição de arte. Aliás, se totalmente renovado, adequado aos tempos atuais, descartada a interferência do Patrimônio Histórico, poderia ser um ótimo edifício. Em vez da Bienal de Arte, poderia por exemplo acomodar uma exposição de arte, não seria uma ótima ideia? Porque o que acham da Bienal de Arte pode ser tudo, menos arte. Se ninguém vai e os que vão detestam, isso passa a ser uma ex-posição. E garanto que existem posições mais interessantes, exceto para quem dirige Bienal de Arte, que como sempre é uma fogueira de vaidades.

De uma maneira que todos chamariam de conservadora, reacionária, retrógrada, para mim a arte terminou nos anos 50/60, sendo o pop-art a sua última expressão expressamente expressiva. O resto não é nem luxo, nem lixo, é simplesmente nada. E de instalações, as que servem para alguma coisa são as elétricas e hidráulicas.

Já arquitetura é outra coisa, a arquitetura do star system é magnífica e não há a menor dúvida de que a melhor coisa (ou a única) dos museus de arte atuais é a sua arquitetura, que é o que encanta e atrai multidões, como os projetos de Calatrava, Foster, Piano e Rogers, Libeskind, Legorreta, Herzog & de Meuron, I.M. Pei, Meyer (Nie e Richard), Gehry e tantos outros. Ou à exceção dos museus interativos de tecnologia, de curiosidades como o rock, de história e veículos, enfim, dos museus que não são de Arte, alguém se interessa pelas exposições de arte atual (para diferenciá-la da arte moderna, que tem seu valor)? Na arte atual a única coisa que interessa e se mede o valor é quanto atingiram os leilões da Sotheby's e da Christie's.

Dado o total desinteresse do público por que montar uma bienal de arquitetura?

Por que então deveriam as exposições de arquitetura atrair público, que não os iniciados? Pelo menos me dei conta de que moscas gostam muito de arquitetura.

Já é extremamente difícil atrair leitores, que não precisam sair de casa, para textos de arquitetura, imaginem deslocá-los em uma cidade de trânsito e inundações para uma exposição hermética e monótona? A propósito, a maior parte dos textos de arquitetura é a mesma coisa, hermótona e monética.

Não se pode criticar o IAB, um órgão que enfrenta enormes dificuldades por não conseguir organizar uma exposição monstruosa (sob todos os aspectos). Pela dimensão da mostra, é o rabo puxando o cachorro.

O que se questiona é: dado o total desinteresse do público, inclusive dos arquitetos, por que montar, com enorme esforço e pouquíssima imaginação, uma bienal de arquitetura? É um monumental exercício de energia, de expectativas, de boa vontade para... nada. Que tal se o dinheiro desperdiçado em Bienais de Arte e Arquitetura fosse utilizado para a renovação do prédio (sempre esquecendo o patrimônio, senão teremos casos como o absurdo da 'ponta da marquise' que o seu grande arquiteto, com justíssima razão, pretende demolir)?

Que me perdoem os puristas, mas já que temos tantas faculdades de arquitetura e tantíssimos arquitetos, não poderíamos fechar por alguns anos a FAU e utilizar todo o seu orçamento para recuperar o prédio, que como tudo que é tombado, acaba tombando mesmo?

Mais um pouco e vai terminar como exemplo de uma civilização, como as ruínas que meus colegas iam estudar na Faculdade de Arquitetura de Firenze.

O edifício equivale como lição, a alguns anos de curso. E já que é para enfrentar os puristas, poderíamos fazer uma última tentativa pela nossa Bienal de Arquitetura. Porque não torná-la interativa, com telões fazendo viagens dentro e fora das grandes obras de arquitetura, sejam elas atuais, contemporâneas, modernas, clássicas ou históricas. Isso substituiria em parte as viagens, que são indispensáveis à formação de um arquiteto.

E por que devem ser os arquitetos a montá-las, se exposições são quase tarefa de cenográfos, como Bia Lessa por exemplo? Enfim, conformemo-nos, não se encontram Gae Aulentis todos os dias.

Fui convidado para montar um debate, avisei que não iria ninguém, foram seis pessoas e fiquei envergonhado com nossos palestrantes (inclusive Flavio Ferreira, do Rio de Janeiro), que em vez de debater, ficaram se debatendo naquele "auditório" tétrico.

Para completar, permaneci no prédio para assistir à palestra (e pensei, um show de imagens) de Jacques Herzog, para vê-lo (ou melhor ouvi-lo) dizer que arquitetura se vê e não se fala e que teria querido mostrar os seus edifícios? Enfim, caí no conto do Herzog e fiquei apenas alguns minutos vendo um monótono debate sobre um assunto (patrimônio) que pode ser necessário, mas não para desperdiçar um grande público (para isso havia) que lá estava para ver as obras de um dos melhores arquitetos do mundo.

Enfim, é duro criticar colegas e amigos que tanto se esforçaram, mas tanto para mim quanto para eles e elas, quem entra no fogo é para se molhar.

É um drama tentar criar interesse para uma exposição de arquitetura e muito pior quando é gigantesca e desorganizada.

O melhor é não fazê-la, pelo menos na forma ultrapassada de Bienal, que só um talento como Jorge Glusberg tem condições de organizar em Buenos Aires, e que inteligentemente concentra as conferências, mesas-redondas, quadradas e retangulares e os superstars em uma semana de arquiterapia intensiva.

Enfim, segundo Einstein (não era arquiteto), "os intelectuais resolvem problemas, os gênios os evitam".

 
 
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