Ao longo de muitos anos de escrever artigos, entre tantas outras, fiz duas previsões erradas. Primeira: só os países ricos podem organizar olimpíadas.
Felizmente errei. Segunda: o muro de Berlim nunca cairia. Bem o muro, que dependendo da minha vontade deveria ter cercado toda a Alemanha (não só a oriental), ser duas vezes mais alto e durar 300 anos, durou só 30. Infelizmente errei.
Graças a, nessa ordem: 1) estarmos na América do Sul; 2) Cidade Maravilhosa; 3) um planejamento bem-feito, na quarta tentativa; 4) um filme de Fernando Meirelles; 5) a presença emotiva do presidente da república; conseguimos um feito brilhante. Falta só um detalhe: organizar a Olimpíada. Muito mais do que as copas, essa é tarefa para uma só cidade, e que tarefa! Nas copas, o que será feito (acreditem) serão vários estádios (futuros elefantes brancos, pretos e de todas as cores, por sermos politicamente corretos), alguns estacionamentos e uma maquiada nos aeroportos, porque se depender da Infraero, o que farão serão mais shopping centers. E até se entende: quem virá da Europa ou da Oceania para assistir a um jogo de futebol em Cuiabá?
Já para a Olimpíada a questão é outra. Assim como ninguém iria a uma competição internacional em Brasília ou São Paulo (que ideia), não é nem necessária uma Olimpíada para atrair público para a cidade de natureza mais bonita do mundo e com as duas maiores festas do globo.
A questão principal não é a Olimpíada em si: é a oportunidade única de dar (ou devolver) ao Rio de Janeiro a importância política e representativa no País, que os governos militares deliberadamente retiraram e que os governantes populistas a partir de Brizola detonaram. Pior: os sucessivos governos desastrosos no Rio de Janeiro quase desintegraram a cidade. Porém não conseguiram, por mais que tentassem, juntamente com a mediocridade imobiliária, retirar da Cidade Maravilhosa o símbolo da melhor arquitetura que se fez até hoje na história do Brasil.
Lembrando dois políticos "ligeiramente" diferentes: sempre antes nesse País o Rio teve a nossa melhor arquitetura. E outra: nunca na história dos conflitos humanos (o que acontece hoje no Rio) tantos fizeram tão pouco para tantos, parodiando W.C., digo, Winston Churchill.
E excetuada a questão da segurança, uma questão social, mas também e principalmente uma questão de polícia na área das drogas, o resto, além da organização que é uma tarefa imensa, é trabalho para arquitetos, urbanistas e engenheiros.
Se quisermos uma Olimpíada boa (exemplar é difícil), é contar com os recursos da nação para recuperar a sua maior joia, o grande motivo, além do futebol, pelo qual somos conhecidos no mundo: o Rio. Mas não são os estrangeiros que devemos impressionar: é o povo (não digo sofrido porque ninguém sofre morando no Rio) desiludido da antiga capital formal que deve receber a sua cidade de volta, limpa da poluição, da desorganização, da pasmaceira econômica e dos bandidos porque é disso do que o Rio mais precisa, de uma limpeza geral.
Trata-se de simplesmente conceder de volta os direitos humanos à população e devolver os direitos desumanos aos bandidos. Quanto ao resto da limpeza penso em Torben Grael e Robert Scheidt, nossos maiores medalhistas olímpicos que não sabem como praticar o esporte de "vela no lixo", lembrando o que será o monumental trabalho da despoluição da baía de Guanabara.
O resto são adaptações urbanísticas e edificações que os bons arquitetos e engenheiros do País sabem perfeitamente projetar e construir.
Mais ainda, todas essas "bondades" vão para uma cidade que em si já é extremamente privilegiada, e das olimpíadas realizadas após a Segunda Guerra, apenas Roma e Sydney se aproximam do encanto de nossa antiga capital.
É uma falácia afirmar que Barcelona só surgiu no mapa após a espetacular renovação urbana da olimpíada. Você vai a Barcelona e vê a mesma cidade magnífica que já era descrita no brilhante livro La catedral del mar. A transformação extraordinária aconteceu ao longo da costa e com alguns edifícios em Montjuich, mas Barcelona já tinha há séculos a pujança econômica, cultural e criativa que Franco tentou retirar.
O mesmo sucede com o Rio: a beleza da cidade, a garota de Ipanema e o time do Flamengo já estão lá. O que falta é uma limpeza urbanística e social e o Rio já foi objeto de algumas extraordinárias operações urbanísticas, como as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas (que me perdoem os patrimonialistas dos antigos casarões). Mas o Rio é uma cidade moderna, com um belíssimo acervo arquitetônico antigo, principalmente no centro.
O porto, se detonarem a avenida perimetral (o minhocão carioca, além do Paulo de Frontin), seria um espaço urbanístico a mais, em uma cidade já tão abençoada pela natureza. E se precisarmos usar exemplos mais atuais, espelho meu, existe no Brasil algo mais bonito e urbanisticamente bem planejado do que o aterro do Flamengo?
P.S.: 1) se o hino do Rio é justamente Cidade Maravilhosa, não seria também maravilhoso se em vez de um incompreensível hino nacional militar, a partir da Olimpíada nosso hino fosse a música pela qual somos conhecidos no mundo: Brasil, ou para nós, Aquarela do Brasil?