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Crônicas Agudas

Sergio Teperman analisa as oportunidades do Rio com as Olimpíadas de 2016
Céu, Sal, Sul...

POR SERGIO TEPERMAN


Ao longo de muitos anos de escrever artigos, entre tantas outras, fiz duas previsões erradas. Primeira: só os países ricos podem organizar olimpíadas.

Felizmente errei. Segunda: o muro de Berlim nunca cairia. Bem o muro, que dependendo da minha vontade deveria ter cercado toda a Alemanha (não só a oriental), ser duas vezes mais alto e durar 300 anos, durou só 30. Infelizmente errei.

Graças a, nessa ordem: 1) estarmos na América do Sul; 2) Cidade Maravilhosa; 3) um planejamento bem-feito, na quarta tentativa; 4) um filme de Fernando Meirelles; 5) a presença emotiva do presidente da república; conseguimos um feito brilhante. Falta só um detalhe: organizar a Olimpíada. Muito mais do que as copas, essa é tarefa para uma só cidade, e que tarefa! Nas copas, o que será feito (acreditem) serão vários estádios (futuros elefantes brancos, pretos e de todas as cores, por sermos politicamente corretos), alguns estacionamentos e uma maquiada nos aeroportos, porque se depender da Infraero, o que farão serão mais shopping centers. E até se entende: quem virá da Europa ou da Oceania para assistir a um jogo de futebol em Cuiabá?

Já para a Olimpíada a questão é outra. Assim como ninguém iria a uma competição internacional em Brasília ou São Paulo (que ideia), não é nem necessária uma Olimpíada para atrair público para a cidade de natureza mais bonita do mundo e com as duas maiores festas do globo.

A questão principal não é a Olimpíada em si: é a oportunidade única de dar (ou devolver) ao Rio de Janeiro a importância política e representativa no País, que os governos militares deliberadamente retiraram e que os governantes populistas a partir de Brizola detonaram. Pior: os sucessivos governos desastrosos no Rio de Janeiro quase desintegraram a cidade. Porém não conseguiram, por mais que tentassem, juntamente com a mediocridade imobiliária, retirar da Cidade Maravilhosa o símbolo da melhor arquitetura que se fez até hoje na história do Brasil.

Lembrando dois políticos "ligeiramente" diferentes: sempre antes nesse País o Rio teve a nossa melhor arquitetura. E outra: nunca na história dos conflitos humanos (o que acontece hoje no Rio) tantos fizeram tão pouco para tantos, parodiando W.C., digo, Winston Churchill.

E excetuada a questão da segurança, uma questão social, mas também e principalmente uma questão de polícia na área das drogas, o resto, além da organização que é uma tarefa imensa, é trabalho para arquitetos, urbanistas e engenheiros.

Se quisermos uma Olimpíada boa (exemplar é difícil), é contar com os recursos da nação para recuperar a sua maior joia, o grande motivo, além do futebol, pelo qual somos conhecidos no mundo: o Rio. Mas não são os estrangeiros que devemos impressionar: é o povo (não digo sofrido porque ninguém sofre morando no Rio) desiludido da antiga capital formal que deve receber a sua cidade de volta, limpa da poluição, da desorganização, da pasmaceira econômica e dos bandidos porque é disso do que o Rio mais precisa, de uma limpeza geral.

Trata-se de simplesmente conceder de volta os direitos humanos à população e devolver os direitos desumanos aos bandidos. Quanto ao resto da limpeza penso em Torben Grael e Robert Scheidt, nossos maiores medalhistas olímpicos que não sabem como praticar o esporte de "vela no lixo", lembrando o que será o monumental trabalho da despoluição da baía de Guanabara.

O resto são adaptações urbanísticas e edificações que os bons arquitetos e engenheiros do País sabem perfeitamente projetar e construir.

Mais ainda, todas essas "bondades" vão para uma cidade que em si já é extremamente privilegiada, e das olimpíadas realizadas após a Segunda Guerra, apenas Roma e Sydney se aproximam do encanto de nossa antiga capital.

É uma falácia afirmar que Barcelona só surgiu no mapa após a espetacular renovação urbana da olimpíada. Você vai a Barcelona e vê a mesma cidade magnífica que já era descrita no brilhante livro La catedral del mar. A transformação extraordinária aconteceu ao longo da costa e com alguns edifícios em Montjuich, mas Barcelona já tinha há séculos a pujança econômica, cultural e criativa que Franco tentou retirar.

O mesmo sucede com o Rio: a beleza da cidade, a garota de Ipanema e o time do Flamengo já estão lá. O que falta é uma limpeza urbanística e social e o Rio já foi objeto de algumas extraordinárias operações urbanísticas, como as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas (que me perdoem os patrimonialistas dos antigos casarões). Mas o Rio é uma cidade moderna, com um belíssimo acervo arquitetônico antigo, principalmente no centro.

O porto, se detonarem a avenida perimetral (o minhocão carioca, além do Paulo de Frontin), seria um espaço urbanístico a mais, em uma cidade já tão abençoada pela natureza. E se precisarmos usar exemplos mais atuais, espelho meu, existe no Brasil algo mais bonito e urbanisticamente bem planejado do que o aterro do Flamengo?

P.S.: 1) se o hino do Rio é justamente Cidade Maravilhosa, não seria também maravilhoso se em vez de um incompreensível hino nacional militar, a partir da Olimpíada nosso hino fosse a música pela qual somos conhecidos no mundo: Brasil, ou para nós, Aquarela do Brasil?

 

 
 
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