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Setor Noroeste, em Brasília, surge em meio a polêmica
POR
RENATO FARIA
Um novo bairro começa a nascer no tombado Plano Piloto de Brasília. É o
Setor Noroeste (9), segmento urbano previsto pelo urbanista Lucio Costa no documento Brasília Revisitada (1985/1987), que trazia diretrizes para que a cidade pudesse continuar crescendo de maneira ordenada. Já estão em andamento as obras de infraestrutura do novo perímetro habitacional, rotulado pelo Governo do Distrito Federal como o primeiro bairro sustentável do Brasil. Surgem, também, os supervalorizados empreendimentos residenciais, que elevam o preço médio do metro quadrado da região a mais de oito mil reais. E, separando o novo bairro da Asa Norte, o Parque Burle Marx (10) começa a ganhar forma.
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O Setor Noroeste, assim como seu irmão mais velho, o Setor Sudoeste, surgiu de uma mudança do projeto original elaborado por Lucio Costa, com o deslocamento em direção ao lago Paranoá ao mesmo tempo em que a EPIA (Estrada Parque Indústria e Abastecimento) foi levada para a direção oposta. O resultado foi o surgimento de duas grandes áreas livres a oeste das Asas Norte e Sul.
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Em uma viagem em 1984, conta a arquiteta Maria Elisa Costa, filha de Lucio, o urbanista teria constatado que os moradores das Asas Norte e Sul gostavam de viver nas superquadras - quarteirões residenciais com cinturões arborizados perimetrais, edifícios de até seis pavimentos construídos sobre pilotis e pontos de acesso viário único, que restringem o trânsito de veículos a moradores e visitantes. Para evitar que a porção de terra adjacente ao Plano Piloto fosse ocupada de maneira indevida - e trágica, a seu modo de ver -, Lucio Costa propôs dois novos bairros a serem criados em uma futura expansão urbana. Todos permeados por superquadras, nos moldes dos setores residenciais já estabelecidos.
Mesmo com a implantação do Setor Noroeste tendo sido prevista por seu pai, Maria Elisa é contra a sua realização do modo como está sendo feita. "O que importa não é falar do projeto como proposta urbana, e sim sobre a impropriedade de sua localização dentro da área tombada do Plano Piloto", acredita. "Na área urbana do Distrito Federal há espaço de sobra para novas experiências em todos os sentidos."
Projeto urbanístico
Por "experiência", Maria Elisa Costa faz referência ao projeto urbanístico do novo bairro, desenvolvido pelo arquiteto Paulo Zimbres."As 'pseudo-superquadras', que deveriam pelo menos ser designadas por outro nome, não são delimitadas por faixas verdes", dispara a arquiteta. Para ela, o atual projeto toma da superquadra de Lucio a única coisa supérflua em termos de conceito: a implantação em forma de quadrados.
Paulo Zimbres prefere não adotar uma postura de enfrentamento em relação aos críticos. "Em grande parte, nosso projeto é obediente às diretrizes historicamente consolidadas. Pensar e propor inovações, mesmo que modestas, significa sempre um parto dificílimo", avalia.
Seu projeto propõe um rearranjo das superquadras: agrupadas em quatro unidades contíguas, elas ampliam, em sua opinião, os espaços de domínio do pedestre. As faixas verdes, afirma o arquiteto, estão presentes. "Cada superquadra continua emoldurada com a faixa densamente arborizada, caracterizando uma unidade residencial, como desejava Lucio Costa. Essas faixas se somam ampliando os espaços de paisagem", explica Zimbres.
As áreas comerciais também foram modificadas. Diferentemente dos demais quarteirões de Brasília, as lojas no Noroeste não serão voltadas para o interior das superquadras: por determinação da Seduma-DF (Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente), o comércio local foi alocado em blocos quadrados, distribuídos na faixa central de um binário de vias locais. A intenção é facilitar a acessibilidade dos pedestres e garantir um maior número de lojas de frente.
Sustentabilidade
O projeto de Zimbres traz novidades de que tanto o Governo do Distrito Federal quanto incorporadores imobiliários se apropriaram para vender o novo setor como "o primeiro bairro sustentável do País". O tratamento e o escoamento das águas pluviais é uma delas. Segundo Zimbres, os lagos e cursos d'água do Parque Burle Marx serão utilizados para retardar a entrega das águas coletadas das chuvas torrenciais às redes de drenagem urbana. "Com uma oscilação de seu nível de apenas 20%, podemos reter por uma hora e meia a água coletada nos espaços pavimentados do novo bairro", explica.
Outra inovação aplicada ao Noroeste é o sistema de coleta de lixo por tubulações a vácuo. A coleta será seletiva, com a separação do lixo orgânico e reciclável. Cada edifício residencial contará com bocas de coleta interligadas por dutos com uma central, que acondicionará os resíduos em contêineres selados e os destinará ao tratamento final. "Evitamos assim o uso dos tradicionais contêineres abertos e lixeiras, bem como o trânsito ruidoso de caminhões de lixo no interior das superquadras", justifica Zimbres.
Algumas vozes, porém, como a de Maria Elisa Costa, mostram-se céticas. "Essas coisas deveriam ser consideradas normais para qualquer administração de qualquer cidade. A palavra sustentabilidade virou moda, e daqui a pouco seu verdadeiro sentido será diluído", acredita Maria Elisa. "Para mim, um bairro é sustentável quando parte de uma cidade sustentável. Em suma, mais simplicidade, bom senso e administração competente do que sonoros discursos."