Haiti: um chamado à consciência dos urbanistas e arquitetos
Por
Roberto Segre
Recentemente, o canal
History Channel apresentou uma série dedicada ao "mundo sem ninguém", sobre como as obras de arquitetura e as cidades se degradariam ao longo das décadas se não fossem habitadas por seres humanos. As construções seriam engolidas pela natureza e logo desapareceriam. No Haiti, ocorreu o inverso: sumiu Porto Príncipe, mas com todos seus habitantes ainda ocupando a cidade. E cabe a pergunta: a destruição dos prédios foi somente motivada pela violência do terremoto? Não. Grande parte dos danos foi consequência da descontrolada especulação edilícia e da ocupação de áreas de risco. Uma forma semelhante ao que acontece no Brasil: lembremos as contínuas enchentes em São Paulo e os deslizamentos dos morros no Rio de Janeiro, como o que aconteceu recentemente em Angra dos Reis.
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Têm-se notícias de furacões e terremotos desde o século 18: os maiores aconteceram em 1751, 1770, 1842 (este destruiu o famoso palácio de Sans Souci (1), do rei Christophe, primeiro presidente de Haiti) e em 1946. O terremoto que em 12 de janeiro de 2010 destruiu a cidade de Porto Príncipe e parte de Jacmel deixou 200 mil mortos e três milhões de pessoas afetadas.
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Ao longo do século 19, com o desenvolvimento econômico de uma burguesia local, surgiu uma arquitetura identificada com a realidade climática e ecológica da ilha. A utilização do sistema balloon framecomo no Hotel Olofsson (2) e as leves estruturas metálicas importadas (3) da Europa e dos Estados Unidos caracterizaram as mansões das famílias ricas de Porto Príncipe, e os mercados populares na capital e em Jacmel (5). E não foi uma simples assimilação de modelos externos: um grupo de jovens arquitetos haitianos que estudaram na École des Beaux Arts de Paris sob a orientação de Viollet-le-Duc assimilaram os elementos formais medievais e os aplicaram criativamente nos palácios de madeira do bairro Pacot, cuja construção leve permitiu que sobrevivessem no último terremoto, de 2010.
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Mas o século 20 não foi particularmente favorável ao desenvolvimento de uma arquitetura própria. Com a ocupação do país pelos Estados Unidos (1915/1934), desenvolveu-se o academicismo nas construções estatais, realizadas em tijolos e concreto armado, pouco adequados às condições locais. São esses edifícios que sofreram os maiores danos: o Palácio Nacional (Georges Baussan, 1912)(4), o Palácio de Justiça, o Presídio, a Catedral, o Hospital Universitário, e um conjunto de igrejas e colégios: foi ao lado da Igreja do Sagrado Coração, também destruída, que estava sendo realizada a conferência onde participava Zilda Arns, diretora da Pastoral da Criança.
A radicalização da diferença entre pobres e ricos aconteceu na segunda metade do século 20, ao longo das ditaduras de François Duvalier (1957/1971) e do seu filho Jean-Claude (1971/1986), com o apoio do governo dos Estados Unidos, sob a justificativa de que se evitaria a influência comunista da Revolução Cubana. A violência dos Tontons Macoutes, a corrupção, a hegemonia de uma oligarquia associada aos interesses norte-americanos, a perseguição aos pequenos camponeses, o tráfico de drogas, o desmatamento da floresta haitiana em 1961 (chamada de pérola verde) e a crise econômica de 1977 que obrigou a emigração de 320 mil habitantes converteram o país no mais pobre da América Latina.
Nas últimas duas décadas, nunca foi obtida uma estabilização política. Sob a presidência de René Préval, em 2004, o país foi ocupado por nove mil funcionários das Nações Unidas, sob a direção do Brasil, que tentaram reduzir as tensões sociais. Não diminuíram os 80% da população que vive abaixo da linha de pobreza nem os 50% de analfabetismo.
Nessa situação já desesperada antes do terremoto, qual é a esperança dos três milhões de habitantes que ficaram sem casa, sem trabalho, em uma cidade onde foram destruídas as infraestruturas básicas? Como consertar um contexto urbano caracterizado pelo predomínio de uma arquitetura popular de baixa qualidade - os danos nos bairros dos ricos foram muito menores -, devido ao uso de materiais precários, em tijolos e concreto armado, sem controle técnico nem de maneira adaptada às exigências antissísmicas.
Um dos problemas imediatos é como alojar 400 mil habitantes que desejam sair da cidade e um milhão de desabrigados, com a ameaça do período de chuvas que começa em março. Apesar das instituições relacionadas com a arquitetura e o urbanismo dispostas a ajudar - ICSID, Docomomo, Icomos -, não se apresentaram projetos concretos de unidades habitacionais básicas.
No Brasil, a ONG Viva Rio, que tem uma sede no bairro de Bel Air, em Porto Príncipe, propõe participação popular na recolha do entulho, e deseja articular a participação do IAB nos planos futuros de ajuda. O que surpreende é a inexistência de soluções disponíveis para o chamado "habitat de emergência". Desde os anos de 1970, sucederam propostas de soluções leves industrializadas para alojar sobreviventes das catástrofes naturais: lembremo-nos dos domos de Buckminter Fuller nos Estados Unidos ou a proposta do cubano Fernando Salinas para reconstruir os povoados no Vietnã, destruídos pela guerra. E, recentemente, os estudos do japonês Shigeru Ban, e a diversidade de unidades mínimas apresentadas na exposição do MoMA
Home Delivery (2008). Mas por enquanto nenhuma instituição dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento possui, prontos, acampamentos com equipamento sanitário básico, ou unidades leves industrializadas. Evidentemente, é uma demonstração de como ainda os arquitetos - ao contrário dos médicos - estão longe dos dramáticos problemas que têm a nossa sofrida humanidade.
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Palácio da Agricultura passa por retrofit em Brasília
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Edifício Palácio da Agricultura (6), imóvel projetado na década de 1970 pelo arquiteto Evandro Pinto Silva para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), passou por obras de retrofit. Localizado no Setor Bancário Norte de Brasília, o projeto assinado pelo escritório Reis Arquitetura foi concluído em 2009 e tinha o desafio de atualizar tecnologicamente o conjunto, que se encontra em área tombada, sem descaracterizar seu desenho arquitetônico original. Destaque para o emprego dos vidros reflexivos duplos na fachada: com a finalidade de proporcionar maior eficiência energética ao edifício, o produto de baixa condutividade térmica substituiu no envelope as esquadrias com vidros comuns, materiais de alta emissividade. "Foi a primeira vez que se utilizou esse tipo de produto em Brasília", afirma a arquiteta Maria Eduarda de Almeida, sócia do escritório. O imóvel, reformado pela Antares Engenharia, passou a ser um edifício comercial.
Santiago Calatrava assina o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro
Mais um projeto está em desenvolvimento para o Píer Mauá, zona portuária do Rio de Janeiro. Santiago Calatrava foi convidado pela Prefeitura do Rio a desenhar o Museu do Amanhã. Os primeiros desenhos devem ser divulgados no fim de abril. Segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), a ideia é trazer maior visibilidade à região com uma obra de destaque - justificativa para a contratação do arquiteto por notório saber, sem necessidade de concurso. A Prefeitura pretende entregar a obra antes da conferência ambiental Rio+20, que será realizada na cidade em 2012.
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Brasileira Nanda Eskes leva menção honrosa em concurso de ideias europeu
O escritório carioca Nanda Eskes Arquitetura recebeu menção honrosa na décima edição do Europan, concurso de ideias que avalia projetos urbanísticos desenvolvidos para cidades europeias. Os candidatos deveriam propor uma intervenção em um dos terrenos indicados pela organização. Os brasileiros escolheram a área portuária de Nordhavn, em Copenhague, capital da Dinamarca, onde um novo bairro com mais de 700 habitações será construído no lugar de antigas docas. O
projeto de Nanda Eskes (7) traz um percurso para pedestres e ciclistas composto por pequenas áreas portuárias, uma praia de dunas, parque de diversão, parque esportivo, marina, entre outros elementos. Esses atrativos seriam interligados por transportes públicos marítimos, comuns na cidade.