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Crônica


João Filgueiras Lima, o Lelé, conta histórias que presenciou durante as obras de construção da nova Capital
POR JOÃO FILGUEIRAS LIMA (LELÉ



Sempre me causa emoção relembrar o período inicial da construção de Brasília e de constatar como ele mudou radicalmente os rumos de minha vida e a de tantos outros que, como eu, acreditaram no sonho de Juscelino de construir uma cidade na solidão do planalto central de nosso País.

No início de 1957, ofereci-me à direção do Instituto dos Bancários, onde trabalhava como desenhista, a me integrar ao grupo que iria construir a SQ 108-Sul pertencente àquela instituição. Todos os meus amigos me consideraram louco. A ideia de transferir a capital para o planalto central só agradava aos goianos, porque, evidentemente, iria melhorar a situação do estado, até então considerado um dos menos desenvolvidos do País.

Os cariocas, de um modo geral, que não queriam perder o status de habitantes da capital, não só rejeitavam a criação de Brasília como desprezavam aqueles que aderiam à idéia. E com seu costumeiro humor, compunham até músicas ironizando a iniciativa de JK - como a de Billy Blanco, com os versos " não vou, não vou pra Brasília nem eu nem minha família". Nesse ambiente, foram praticamente "caçadas a laço" as pessoas que iriam construir a nova capital.

acervo pessoal
Lelé durante a execução da fundação da superquadra 108
Assim, não é de causar nenhuma admiração que o oferecimento de um arquiteto recém-formado de 25 anos tenha sido aceito pela direção do IAPB e que, imediatamente (talvez para que não mudasse de ideia), foi intimado a procurar o arquiteto Oscar Niemeyer e sua equipe para receber os desenhos iniciais dos projetos dos 11 edifícios de apartamentos a serem construídos pelo instituto na nova capital.

Fui recebido inicialmente por Nauro Esteves, chefe do escritório de Oscar que teve uma participação importantíssima na construção da cidade. Nauro, apesar de seu temperamento introvertido e seco no trato com outros profissionais, foi convincente ao me estimular a participar daquela aventura. Já Oscar, com quem estive rapidamente na ocasião, em tom de brincadeira enalteceu minha coragem.

Um mês depois, estávamos eu e Ayrton Pinheiro, que iria ser administrador do nosso escritório, habitando uma dependência que chamavam de quarto, em um pequeno barracão de madeira (uma das poucas e precárias construções do Núcleo Bandeirante) sem instalações sanitárias e sem luz elétrica. Mal conseguíamos dormir porque fomos informados que D. Maria, dona da estalagem chamada ironicamente de hotel Paraíso, era portadora do mal de Chagas. Passávamos as noites vasculhando as frestas entre as madeiras que poderiam muito bem abrigar "barbeiros" transmissores contaminados por D. Maria. Mas, felizmente, o crescimento do Núcleo Bandeirante era rápido devido ao grande contingente de pessoas que chagavam de todas as regiões do País.

Alguns dias depois, fomos para um barracão bem melhor, pintado de azul e rosa, com a denominação pomposa de hotel Santos Dumont, e que em homenagem ao pai da aviação, tinha a planta baixa no formato do quatorze bis. As instalações eram bem melhores que as do hotel Paraíso: havia um lavatório no quarto e um gerador que fornecia luz elétrica duas horas por noite. Mas nossa estada também não foi das melhores porque, devido à péssima alimentação, brotaram furúnculos no Ayrton, especialmente de baixo dos braços, que o impediam até de escrever. E eu tive que aprender a lancetar e espremer os furúnculos do meu amigo durante várias noites.

Nessa época já haviam se juntado a nós alguns operários, o Arno, membro da comissão responsável pela transferência do IAPB para Brasília e seu auxiliar Jessé, pernambucano de ótimo humor que sempre alegrava nosso ambiente, especialmente nas noites em que cantávamos acompanhados pelo meu acordeom no bar Lindóia.

E, gradualmente, nosso grupo foi crescendo. Nos transferimos para a própria quadra 108, e nos abrigamos no futuro alojamento que até então só tinha os pilares e a cobertura concluídos. Passamos as duas primeiras noites quase sem dormir devido à invasão de insetos abundantes na seca e atraídos pela luz dos nossos lampiões.

acervo pessoal
Inspecionando a execução de um tubulão
Lembro-me da impressão forte que me causou contemplar a imensidão do cerrado em um horizonte linear de 360º, tão diferente daquele com que me habituara desde criança no Rio de Janeiro. Durante as noites absolutamente sem nuvens do auge da seca era surpreendente observar o céu repleto de estrelas que se confundia com a própria linha do horizonte. Era admirável também que no final da seca, como que se antecipando ao período das chuvas, começasse a surgir por todo o cerrado uma profusão de flores multicoloridas. Sobressaiam, entre elas, as do Ipê amarelo, fixadas em tal quantidade nos ramos desfolhados e estorricados pelo calor, sugerindo uma explosão de um amarelo intenso que redesenhava a silhueta da árvore. Muitas dessas flores secavam mantendo suas estruturas, peculiaridade que despertou a sensibilidade de Zanine Caldas, levando-o a criar seus arranjos secos que se tornaram famosos no mundo inteiro.

Para abrigar cerca de dois mil operários para a construção da SQ, tivemos que construir edifícios provisórios destinados a alojamentos, refeitório, cozinha, lavanderia, residências para engenheiros e familiares no terreno da SQ 109 , contígua a 108 e também pertencente ao IAPB.

Minha função de projetar e executar aquela pequena cidade em um curto período e, ao mesmo tempo, iniciar a construção dos edifícios, obrigou-me a um estudo intensivo selecionando as informações técnicas indispensáveis ao exercício de minhas funções. Aproveitava as poucas horas que sobravam para estudar cálculo estrutural, instalações elétricas, hidráulicas, fundações etc. A eventual ajuda técnica que poderia vir dos escritórios do Rio só ocorria precariamente pelo rádio, uma vez por semana e durante cerca de meia hora (reservada pela Novacap ao IAPB). Para ganhar tempo na construção, desenvolvi com o apoio de dois excelentes operários alemães (Werner Grumpich e Walter Reinicke) tecnologias de pré-fabricação em madeira. Montamos uma grande oficina de marcenaria que mais tarde executou também todos os serviços em madeira dos onze prédios.

O IAPB conseguiu a façanha de inaugurar a primeira cumeeira da cidade, graças a uma ideia de Juca Chaves, presidente da Empresa de Construções Gerais, contratada em regime de administração para nos ajudar na construção dos prédios. Executamos inicialmente as lajes do 1º, 3º ,5º pavimentos e a da cobertura. Assim, alcançávamos a cumeeira em quase a metade do tempo necessário para a execução convencional de pavimento por pavimento. A principal vantagem era o da execução abrigada das chuvas de boa parte da estrutura de concreto - com ganhos no prazo e, consequentemente, de ordem econômica.

Para comemorar nossa façanha, o IAPB organizou uma grande comemoração na obra com churrasco para os operários, com a presença do Presidente da República e de sua comitiva que veio do Rio de Janeiro em um DC3 fretado. À noite, houve uma grande festa no acampamento de uma empresa de terraplenagem, organizada por seu presidente, o engenheiro Cincinato Braga. Mas a festa acabou em tremenda pancadaria iniciada por meu amigo Alfredo França, arquiteto que trabalhava conosco na obra do IAPB, e pelo pianista Bené Nunes.

acervo pessoal
Obra das 138 residências do IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários), durante montagem dos painéis de madeira do teto
A briga começou porque Bené, galanteador famoso, engraçou-se para o lado de Pepita, esposa de Alfredo. Meu amigo não perdoou e sem qualquer discussão desferiu um soco no queixo de Bené. Depois de todas as garrafas de uísque consumidas, a turma do "deixa-disso" entrou na briga também e a confusão foi geral. Felizmente, o episódio ocorreu no fim da festa e Juscelino já havia se retirado.

Os membros da comitiva dormiram em Brasília distribuídos em acampamentos e quase todos tomaram café da manhã no refeitório do IAPB. O escultor Cesquiatti nos contou que tinha sido embarcado no avião já completamente chumbado e nem sabia para onde estava sendo levado. E com a quantidade de bebida que rolou durante as comemorações, ele continuou chumbado pelo resto do dia e da noite. Depois da festa, foi alojado em uma pequena casa próxima ao Catetinho onde estava a estação de rádio da Novacap. Acordou na manhã seguinte sem se lembrar bem do que havia acontecido no dia anterior. Quando notou a paisagem do cerrado em torno da casa, a primeira coisa que imaginou foi que tivessem jogado uma bomba atômica no Rio de Janeiro (naquela época da guerra fria, estava na moda a eminência de uma guerra nuclear).

Se por um lado as dificuldades técnicas e os compromissos inadiáveis dos prazos de construção criavam tensões no relacionamento entre as pessoas, por outro, estimulavam um sentimento de solidariedade, que passou a ser cultivado como um instrumento indispensável à realização de trabalho diário. Durante as chuvas de fim de ano de 1957, lembro que ajudei um homem com seu jipe atolado no lamaçal de uma pequena estrada entre as inúmeras que surgiam entre os acampamentos. Depois de muito esforço, conseguimos liberar o veículo substituindo uma de suas rodas danificadas pelo estepe do meu jipe. Dei-lhe o endereço do nosso acampamento para que pudesse me devolver a roda, mas me esqueci de perguntar o seu nome. No dia seguinte, quando recebi a roda de volta trazida por um motorista, havia também uma carta de agradecimento muito gentil da pessoa que eu tinha ajudado. Era Bernardo Sayão que, juntamente com o engenheiro Israel Pinheiro e o médico Ernesto Silva, formava a comissão nomeada por Juscelino para a transferência da capital. Ernesto Silva reside até hoje em Brasília e se tornou um dos mais ferrenhos defensores da integridade do plano da cidade.

O presidente dessa comissão era o engenheiro Israel Pinheiro, mineiro de Paracatu e velho amigo de Juscelino. Seu temperamento autoritário e a maneira rude de cobrar as etapas da construção tornavam-no temido pelos arquitetos e engenheiros das obras. Lembro-me de um episódio famoso, protagonizado por meu amigo Ataualpa Prego, no período em que ele era responsável pela execução da pista do aeroporto. Israel estava preocupado com a realização dessa obra, indispensável ao pouso dos aviões maiores e, sobretudo, do Vicount presidencial, um turbo-hélice que era novidade tecnológica na época. Ataualpa já não suportava mais as cobranças de Israel na frente dos mestres e operários. Um belo dia em que as pessoas estavam mais afastadas, depois da costumeira fiscalização e de Israel ter virado-lhe as costas para ir embora, Ataualpa seguiu-o gesticulando com o dedo em riste como se estivesse reagindo às suas eventuais grosserias. Assistindo à cena de longe, os operários não puderam perceber que ele movimentava vigorosamente os lábios, mas não emitia nenhum som. A partir desse episódio, Ataulpa foi consagrado por todos por sua coragem de ter esculhambado o Dr. Israel Pinheiro.

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Jose Lourenço de Sousa [01/04/2010 09:59]Mensagem imprópria? Clique aqui

Quem não viveu aqueles tempos, quase heróicos, pode ter uma visão sintética do ocorrido, vista por quem esteve mergulhado no processo. Já conhecia essa história pelas conversas que tínhamos quando trabalhei em seu escritório. A epopeia de se fazer Brasília não terminou com o ato simbólico da inauguração. A crônica fala de um modo bem suave do quer foi a realidade principalmente no pós 64 com a "caça às bruxas" (pessoal do Oscar, principalmente). Paralização de obras na UnB, cassação de professores. Restrição (disfarçada) a seus trabalhos com as consequentes dificuldades financeiras, obrigando a fazer outras coisas que não Arquitetura. Lelé é muito reservado quando fala de si mesmo. Mas persistente e por isso é quem é.
Jose Lourenço de Sousa [01/04/2010 09:58]Mensagem imprópria? Clique aqui

Quem não viveu aqueles tempos, quase heróicos, pode ter uma visão sintética do ocorrido, visto por quem esteve mergulhado no processo. Já conhecia essa história pelas conversas que tínhamos quando trabalhei em seu escritório. A epopeia de se fazer Brasília não terminou com o ato simbólico da inauguração. A crônica fala de um modo bem suave do quer foi a realidade principalmente no pós 64 com a "caça às bruxas" (pessoal do Oscal, principalmente). Paralização de obras na UnB, cassação de professores. Restrição (disfarçada) a seus trabalhos com as consequentes dificuldades financeiras, obrigando a fazer outras coisas que não Arquitetura. Lelé é muito reservado quando fala de si mesmo. Mas persistente e por isso é quem é.
 
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