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Crônica


Um arquiteto na Brasília de hoje, por Paulo Henrique Paranhos
Por Paulo Henrique Paranhos


acervo pessoal
Brasília se impõe, desde sempre, como símbolo inequívoco de um projeto maior, uma proposta de nação. O olhar fixo em um futuro melhor tornou-se naquele momento inicial o ponto de encontro entre os que, desde sua concepção, acreditaram.

Era junho de 1964, início dos tempos sombrios da ditadura, eu ainda criança visitava pela primeira vez a capital. Acreditávamos, já naquele momento, que o marco concreto, os novos eixos traçados na realidade construída, tinham um grande significado e evidenciavam a conquista de novas perspectivas para o País.

Os soldados e as armas tinham recém-invadido as ruas e avenidas da capital. Mas, ainda assim, havia o encantamento por aquela cidade. Aquele gesto civilizatório edificado se reafirmava como expressão viva de um avanço cultural cada vez mais forte. Diante desse cenário, com olhares orgulhosos de humildes cidadãos brasileiros, fizemos uma foto em frente ao Congresso Nacional.

O otimismo e a necessidade de vencer no dia a dia se impunham e sempre acreditávamos que a agressão militar não iria perdurar por muito tempo. Que eram indesejados hóspedes transitórios.

Em fevereiro de 1970 viemos de forma definitiva. O desconforto do migrante é inesquecível, por todos aqueles que ficam distantes. Entretanto, em meio a momentos de muita saudade e tristeza, jamais faltou paixão pela cidade que descobríamos a cada momento.

O "time da quadra", os grupos de jovens, a maneira livre e solta que vivíamos as superquadras, as muitas transformações das diversas áreas ainda por construir davam-nos um enorme prazer em ver o cerrado se transformar em Capital Federal. A Esplanada dos Ministérios toda ocupada à espera do Papa, o grande ato de solidariedade no cortejo de JK e outros momentos inesquecíveis eram sempre enriquecidos pela paisagem de sua inconfundível e admirada arquitetura.

A constante visita de parentes e amigos, os diversos turistas a elogiar a cidade, sempre foram motivos de orgulho a alimentar nossa crença nesse projeto maior.

Num momento posterior, o vínculo criado e o nosso amadurecimento junto à cidade que se fazia, cada vez mais viva, nos permitiram conquistar o que há de mais importante: a sensação de apropriação, domínio e pertencimento. Éramos verdadeiros brasilienses.

Ainda avizinhados pelos fantasmas de um poder militar que muitas vezes queria controlar até nossa rotina diária, acreditávamos sempre que vivíamos uma situação política transitória. Era tempo de resistência e luta.

Lamentavelmente, mas talvez pela atração dos opostos, uma cidade com tantas riquezas e virtudes atrai hóspedes indesejados até o dia de hoje.

Não somos maniqueístas, mas não é fácil conviver com os medíocres de plantão; com interesses individualistas que não trazem nenhuma contribuição ao verdadeiro crescimento e à riqueza da cidade e de nosso País.

Aprendemos, em nosso cotidiano, a viver esse caldeirão cultural que reafirma a riqueza dos diversos Brasis somada a uma realidade política heterogênea, representativa das regiões brasileiras. As virtudes e as contradições dessa sede do poder transbordam em nosso cotidiano de forma muito cristalina. Coabitamos com muita proximidade uma realidade típica da capital da República.

Talvez esse seja, sim, o grande mérito, nosso maior desafio: participar desse indesejado convívio para conseguirmos de fato avançarmos em nossas conquistas, perpetuar valores e construir, quem sabe, a tão desejada sociedade mais honesta, justa e humana.

Viver em Brasília ainda hoje, e como arquiteto, é uma experiência intensa que não deve estar em nenhum momento dissociada do seu contexto inicial. Participar ativamente da construção de uma cidade, capital do País, concebida dentro do amplo e gigantesco projeto a que se propôs.

Talvez esse continue sendo nosso maior orgulho e nossa principal herança, deixada pelos grandes mestres: o compromisso indissociável entre o fazer arquitetônico e o pensar o projeto de um Brasil melhor, como tantas vezes já mencionado, mas nem sempre assimilado.

Aliás, a herança é grande e culturalmente ampla se considerarmos que, à luz de um sonho que se tornou realidade, temos intrinsecamente à nossa disposição uma proposta de modernidade, um vocabulário, a luz, o verde, a amplitude com o horizonte que se vislumbra livre na imensidão desse planalto. Uma ampla e real perspectiva de uma nova paisagem.

Seria apenas poético se não fosse realidade, assim como seria apenas teórico se não vivêssemos em nosso dia a dia, detalhe a detalhe, o interessante desenho dessa cidade.

O ensinamento em ver como se dá a relação entre o espaço público e o privado, a articulação das diversas escalas, a proposta do edifício e a cidade como um verdadeiro "continuum" a ser conquistado, faz com que nosso passeio arquitetural nos permita, no dia a dia, redesenhar também nossas leituras e percepções.

À boa herança sempre cabe respeito e reverência, mas com coragem lançamos, de forma humilde e cautelosa, nossos projetos, ensaios e contribuições que poderão um dia ser avaliados, e quem sabe considerados, pelas novas gerações.

Paulo Henrique Paranhos é arquiteto formado pela Universidade de Brasília e mora há 30 anos na capital. Na foto, é a segunda criança, da direita para a esquerda.

 



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