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Interseção


Roberto Segre e José Barki mostram a genealogia do edifício do Congresso Nacional, projeto pensado por Oscar Niemeyer e Lucio Costa
Por Roberto Segre e José Barki



É quase certo que a espécie humana não se libertará de paradigmas arquitetônicos ancestrais que simbolizam o poder. Com diferentes significados em diferentes ocasiões, torres, domos, rotundas e cúpulas têm um papel que vai além de ideias arquitetônicas ou de engenharia, são metáforas de poder religioso, civil, militar ou econômico.

Desde a Great Stupa em Sanchi, Índia, passando pela cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma, a religião reconhece na forma esférica uma aproximação do mundo material à ordem divina do universo. Com o aumento de organizações civis, tendo como auge a Revolução Francesa, os arquitetos começam a se preocupar com elementos simbólicos que se conectariam com as novas funções públicas e sociais, como mercados, bibliotecas, hospitais, teatros, palácios de governo e legislativos. No século 18, esses elementos foram identificados com severos códigos neoclássicos. A forma pura do domo passou a representar também a visibilidade do poder político na cena urbana.

A emergência do sistema republicano na Europa e Estados Unidos, e a divisão do sistema político entre os poderes executivo, judiciário e legislativo privilegiou uma identificação com o último deles, como a representação simbólica dos desejos coletivos. O modelo, que teve enorme difusão e aplicação universal, foi o Capitólio de Washington (1792-1830), por William Thurston, Benjamin Henry Latrobe e Charles Bulfinch, um grande volume retangular com ornamentos clássicos, culminando na cúpula central. Um exemplo repetido no projeto em Nova Delhi, Índia, por Edward L. Lutyens (1911) e em Canberra, Austrália, por Walter Burley Griffin (1911).

Antecedentes brasileiros

No Brasil, a ideia de construir um edifício para sediar uma Câmara Legislativa vem de longe. O arquiteto francês Grandjean de Montigny, na primeira metade do século 19, propôs ao Imperador Dom Pedro II projetos monumentais para o palácio do governo e para um palácio legislativo - idealizados com uma cúpula central rebaixada semelhante aos modelos neoclássicos -, que não foram construídos. Mesmo após a criação do estado republicano, em 1889, até a inauguração de Brasília, em 1960, não existiu um palácio legislativo com significação icônica nacional.

Pode-se interpretar o fato como uma situação de transitoriedade, com a histórica instabilidade das instituições políticas e seu reflexo na superficialidade, além do caráter cenográfico que definia a configuração das estruturas urbanas e de seus símbolos arquitetônicos. De fato, no início do século 19, o prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1903/1906), alterou a imagem do centro da cidade colonial com a abertura de uma avenida monumental definida por edificações ecléticas, promovendo um concurso não de edifícios, mas de fachadas "acadêmicas".

A construção de um palácio legislativo na Praça da República, que chegou a ser objeto de concurso, não se concretizou. No início dos anos 20, são construídas no Rio de Janeiro a Câmara de Vereadores (1923) e a Câmara de Deputados (1926) do Distrito Federal, projetadas pelos arquitetos acadêmicos Archimedes Memória e Francisque Cuchet. Sem que houvesse a preocupação de localizá-los em uma situação urbana que valorizasse sua importância simbólica. Na mesma época, o Senado Federal foi acomodado no Palácio Monroe, na Praça Marechal Floriano, Centro da cidade. O edifício, de estrutura metálica desmontável, foi projetado por Francisco Marcelino Souza Aguiar para o pavilhão do Brasil na Exposição de Saint Louis de 1904, Estados Unidos, e reconstruído no Rio de Janeiro em 1906. A cúpula central dominava um volume articulado e ornamentado por elementos formais barrocos de gosto pompier. Provavelmente, foi a falta de representatividade arquitetônica que motivou sua rejeição por Lucio Costa, e o apoio à sua demolição em 1975. Com o Congresso de Brasília construído, talvez quisesse apagar a lembrança superficial de um triste passado.

Lucio Costa: a iconicidade clássica do Palácio do Congresso

Quando o presidente Juscelino Kubitschek (1955/1961) decidiu concretizar a construção da nova capital, desejava criar uma imagem de cidade que representasse um Brasil moderno, voltado para o futuro e que integrasse as camadas sociais e étnicas do País. Brasília, surgida no vazio do sertão, devia possuir elementos simbólicos simples que clarificassem a ideia de um Estado Nacional renovado.

Dos projetos apresentados no concurso de 1957, somente Lucio Costa compreendeu o valor simbólico das estruturas funcionais do governo que deveriam sintetizar a imagem da cidade. Na maioria das soluções, os núcleos habitacionais eram tratados com mais importância do que a imagem do centro cívico governamental. Costa centrou a essência da sua proposta justamente no predomínio simbólico do Congresso, na identificação dos três poderes do sistema republicano e da sua percepção à distância pelo Eixo Monumental, estabelecendo o vigor e a permanência do seu valor icônico. Sua justificativa é clara: "O monumento no caso de uma capital não é coisa que se possa deixar para depois: o monumento ali é o próprio conjunto da coisa em si", afirma no livro Lucio Costa: registro de uma vivência (1995).

O ponto culminante do eixo, para Lucio Costa, acontece no conjunto do Congresso, com a proposta de um embasamento de pedra à vista de cinco metros de altura. Sobre este, Costa propôs duas praças secas e apoiou um retângulo, também de cinco metros de altura, imaginado como um volume sólido com cúpula, que organiza o espaço edificado do Congresso, e uma torre para as secretarias das duas Câmaras.

Esses elementos monumentais "modernos" mantinham ainda a expressão clássica do volume coroado por uma cúpula, entre a esplanada do Eixo Monumental e a praça triangular que se alarga para acomodar simetricamente os palácios do Executivo e da justiça. Na Praça dos Três Poderes, um espelho d'água e um renque de palmeiras - sempre presentes nos projetos tropicais de Le Corbusier - abrandariam a dureza do triângulo de pedra. Plataformas, eixo monumental, torre e cúpula organizariam um sistema formal de equilíbrio clássico, que constitui uma procura persistente na obra de Costa, por ele definido como plástico-ideal. Uma solução simples e tradicional que não incorporou a ideia do espace indecible que caracteriza a acrópole de Chandigarth, onde se criou uma complexa tensão espacial entre os prédios governamentais. Tampouco rejeitou a presença da cúpula, herança arquitetônica tradicional que Le Corbusier, no Palácio da Assembleia, havia transformado em um tronco de cone, forma que nos dias hoje remete a uma torre de resfriamento comum em centrais elétricas termonucleares.

A inovação formal de Oscar Niemeyer

Assumindo o encargo de projetar todos os edifícios do Eixo Monumental, Niemeyer começa uma corrida contra o tempo. O desafio principal foi o conjunto monumental da Praça dos Três Poderes, cuja configuração tinha sido definida por Costa nos desenhos esquemáticos do Plano Piloto. Não há testemunhos sobre a dinâmica do diálogo entre Costa e Niemeyer nas sucessivas mudanças do projeto original para atingir a solução definitiva. Mas seguindo a evolução dos riscos de Niemeyer e as mudanças na organização de formas e funções, parece evidente que Costa, respeitando e admirando a criatividade do seu ex-discípulo, deixou-o à vontade para concretizar o conjunto de edifícios que mantiveram a organização proposta originalmente: o Palácio do Congresso, o Palácio do Executivo e o Palácio da Justiça.

No início, Niemeyer tentou respeitar os elementos definidos por Costa, mas logo surgiram divergências entre as concepções formais dos dois arquitetos: o Mestre, mais conservador em termos arquitetônicos; o discípulo, mais livre e arrojado na procura por novos símbolos urbanos.

A primeira decisão de Niemeyer elimina os dois embasamentos que separavam os prédios do contexto natural. Para o arquiteto, deveria existir um diálogo entre a natureza e as formas geométricas abstratas. Também não conservou a cúpula central inicialmente prevista, estabelecendo dois ambientes diferenciados: um para o Senado e outro para a Câmara de Deputados. Niemeyer estuda diversas formas para a torre do secretariado resolvendo-as finalmente com duas lâminas paralelas de 27 pavimentos, e projeta um extenso volume baixo horizontal com dois anfiteatros trapezoidais nos extremos, arranjo formal que remete ao conjunto projetado para o Parque do Ibirapuera. A inovação se dá com a coluna escultural: a repetição modulada desse elemento ao longo das duas fachadas define a leveza e a transparência do volume horizontal.

Não satisfeito com a simplicidade das salas trapezoidais nos extremos, começa a experimentar com a calota, forma da "oca", também previamente utilizada em São Paulo. A sucessão de desenhos mostra as variantes testadas para o posicionamento das calotas: por cima do volume baixo, diante deste, dos seus lados e finalmente com a proposta da calota invertida - que não deixa de ser uma adaptação curvilínea da pirâmide invertida do museu de Caracas -, que indicaria a leitura diferenciada das salas do Senado e da Câmara dos Deputados. Progressivamente se aproxima da solução definitiva, resolvendo gradativamente cada um dos elementos formais e espaciais do conjunto.

A procura por um símbolo nacional

No depoimento publicado na revista Módulo em 1958, Niemeyer afirmou que ingressava "em uma nova etapa do trabalho profissional. Etapa caracterizada por uma procura constante de concisão e pureza, e de maior atenção para com os problemas fundamentais da arquitetura. [...] Neste sentido, passaram a me interessar as soluções compactas, simples e geométricas; os problemas de hierarquia e de caráter arquitetônico; as conveniências de unidade e harmonia entre os edifícios. [...] No prédio do Congresso Nacional, meu propósito foi fixar os elementos plásticos de acordo com as diversas funções, dando-lhes a importância relativa exigida, e tratando-os no conjunto como formas puras e equilibradas."

A proposta apresentou desafios. O primeiro foi achar uma solução rápida e simples, que facilitasse a sua concretização no curto espaço de tempo. O segundo foi criar uma forma icônica original que pudesse expressar plasticamente os valores de um Brasil renovado. O terceiro foi resolver os complexos problemas funcionais do Congresso sem alterar nem afetar a simplicidade dos volumes elementais do conjunto.

Com esse objetivo, Niemeyer fez quatro mudanças radicais na proposta de Costa: a) eliminou a plataforma e o prédio maciço que servia de embasamento à torre; b) mudou a posição da torre do Secretariado colocando-a numa posição contígua à Praça dos Três Poderes; c) transformou a configuração espacial triangular em uma retangular; d) substituiu a cúpula central por duas calotas.

A percepção do conjunto desde o Eixo Monumental se alterou radicalmente. A visão dos elementos sólidos foi substituída pela perspectiva do gramado em declive que praticamente se integra ao espelho d'água sobre o qual flutua uma fina laje imaginada como uma plataforma horizontal de uso público, sobre a qual se apoiam as duas calotas que, com dimensões distintas e posicionadas de modo inusitado, configuram uma composição assimétrica.

A massa edificada prevista inicialmente foi substituída por uma imagem pura de uma brancura quase surrealista e com as duas calotas de tamanhos diferentes - a menor, do Senado, uma delicada curva aberta ascendente quase que absorvida pela plataforma, e a maior, a Câmara de Deputados, uma curva fechada incorporada à base. Com a configuração, fica evidenciada a expressão do poder com maior participação popular - os deputados - e o grupo menor, mais elitista, dos senadores. A expressão plástica do funcionamento do Congresso evidencia-se na nova linguagem que prescreve definitivamente a tradicional cúpula central, ícone já vazio de significado.

A assimetria das cúpulas foi reafirmada pela torre dupla que equilibra, verticalmente, a horizontalidade predominante do conjunto. O espelho d'água sublinha a presença das torres na Praça dos Três Poderes e a leveza do conjunto arquitetônico é reafirmada pelo arranjo que regula a disposição das leves colunas esculturais que destacam os palácios do Executivo e da Justiça.

Niemeyer compreendeu que a solução tectônica de Costa não reconhecia a expressão visual que sua significação simbólica requeria, e que era necessário substituir a monumentalidade tradicional por uma nova visibilidade mais de acordo com a cultura contemporânea. Em vez de reafirmar a presença da arquitetura com uma expressão formal mais sólida, baseada nos elementos tradicionais, preferiu incorporar formas geométricas puras e brancas na imagem contínua do espaço natural, uma revelação inusitada e surpreendente pela simplicidade.

Assim, a plataforma que sustenta as calotas ganha uma expressão formal mínima, absorvida no desnível do terreno - arranjo acentuado pelas duas avenidas laterais que atingem a altura do topo da laje e definem os contrafortes que delimitam uma base horizontal sombreada. A leveza quase irreal da laje onde as calotas se apoiam é ressaltada na solução para seu encontro com os limites do terreno: quatro triângulos que reafirmam a imagem de uma fina placa que flutua sobre o gramado. De fato, a plataforma dá continuidade ao gramado e é um grande átrio aberto que precede a entrada à Praça dos Três Poderes, acessível à circulação da população. Outro elemento expressivo que reforça o caráter aéreo da laje é a rampa de acesso que, a partir do gramado da Esplanada, desenvolve-se sobre o espelho d'água. Para manter o conjunto simples e puro, foram criados dois volumes semienterrados e paralelos às avenidas laterais, para abrigar os serviços complementares.

Costa imaginou o conjunto governamental como uma acrópole isolada e autônoma no contexto da cidade. Os edifícios puros e imaculadamente brancos deviam manter-se isolados e preservados das mudanças que porventura aconteceriam com a evolução natural da cidade. A declaração de seu status como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco ocorre em 1987 e coincide com as declarações da Acrópole de Atenas, Veneza, Potosí e para a Muralha Chinesa. Ou seja: pouco tempo depois de construída, Brasília assume significação histórica mundial.

No entanto, sua preservação não ocorreu conforme o desejo de Lucio Costa. O próprio Niemeyer foi responsável por intervenções questionáveis nas proximidades da Praça dos Três Poderes, espaço que perdeu a sua pureza original: prédios anônimos de instituições oficiais e o gigantesco e desproporcional mastro construído na ditadura militar alteraram a simplicidade do conjunto. Mas sua força icônica sobrevive no tempo e no espaço. Como afirmou Tomás Maldonado em 1959, "com a criação de Brasília, temos pela primeira vez a possibilidade de ir para frente, de abrir novas perspectivas [...] é quase um gesto de desespero da inteligência sul-americana para abrir novas perspectivas à nossa realidade terrível e dolorosamente fechada".

 

ROBERTO SEGRE é professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em planejamento regional e urbano do IPPUR da UFRJ. É autor de diversos livros, entre eles, Arquitetura brasileira contemporânea, Brasil: jovens arquitetos e Casas brasileiras (Viana & Mosley Editora).

JOSÉ BARKI é professor do Darf e do Prourb na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em urbanismo também pelo Prourb. Atualmente, é vice-diretor da FAU-UFRJ.

 

Bibliografia
ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian. Arquitetura moderna brasileira. Londres: Phaidon Press, 2004.

BARKI, José. O risco e a invenção. Tese de Doutorado apresentada no Prourb/FAU/URFJ, Rio de Janeiro, 2005.

CASCIATO, Maristella; VON MOOS, Stanislaus (Edit.). Twilight of the plan: Chandigarh and Brasilia. Mendrisio: Mendrisio Academy

Press, 2007.

COSTA, Lucio. Lucio Costa: registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.

GOROVITZ, Matheus. Brasília. Uma questão de escala. São Paulo: Editora Projeto, 1985.

PEDROSA, Mario. Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Editora Perspectiva, 1981.

PHILIPPOU, Styliane. Oscar Niemeyer. Curves of irreverence. New Haven: Yale University

Press, 2008.

QUEIROZ, Rodrigo (Org.). Coleção Niemeyer. Desenhos originais de Oscar Niemeyer. São Paulo: FAUUSP/MAC-USP, 2007.

SEGRE, Roberto. "Paradojas estéticas de un Niemeyer definitivo". In A.V. Monografías (125), Madrid, pp. 6-13, 2007.

SEGRE, Roberto; OHTAKE, Ricardo, Oscar Niemeyer. 100 years, 100 works. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2007a.

XAVIER, Alberto (Edit.). "Oscar Niemeyer. Depoimento". In Arquitetura moderna brasileira: depoimento de uma geração. São Paulo: ABEA/FVA/PINI, pp. 221-224, 1987.

 



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