Não pretendia competir e, na verdade, não concorro, - apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada mas surgiu, por assim dizer, já pronta.
Compareço, não como técnico devidamente aparelhado, pois nem sequer disponho de escritório, mas como simples maquis do urbanismo, que não pretende prosseguir no desenvolvimento da ideia apresentada senão eventualmente, na qualidade de mero consultor. E se procedo assim candidamente é porque me amparo num raciocínio igualmente simplório: se a sugestão é válida, estes dados, conquanto sumários na sua aparência, já serão suficientes, pois revelarão que, apesar da espontaneidade original, ela foi, depois, intensamente pensada e resolvida; se o não é, a exclusão se fará mais facilmente, e não terei perdido o meu tempo nem tomado o tempo de ninguém.
Lucio Costa, no texto que acompanhou o documento para o concurso, explicando o porquê do não detalhamento do projeto
Os dois primeiros croquis que ilustram a Memória Descritiva de Lucio Costa para o concurso do Plano Piloto representam uma cruz e um triângulo. A cruz é tanto uma tomada de posse colonial quanto pode se referir ao nome anterior do Brasil, Terre de Sainte Croix ou Terra de Vera Cruz. O triângulo é, obviamente, um diagrama da organização tripartite de uma democracia, mas também pode, menos obviamente, ser a representação do próprio mapa triangular do Brasil. Tanto a cruz quanto o triângulo ocupam um retângulo que, desde 1893, existiu como um vazio encarregado de contribuir para a construção de uma identidade nacional (primeiro como o Quadrilátero Cruls e depois como o Retângulo Belcher). O eixo horizontal da cruz curva-se para se conformar à topografia e, como escreveu Costa, "a fim de contê-lo no triângulo que define a área urbanizada". O arco resultante delineia a curvatura do Eixo Rodoviário-Residencial e define a forma de um avião ou de uma libélula. O mesmo arco é composto pela rede de circulação de tráfego e pelo tecido urbano das superquadras, uma curva catenária que, uma vez urbanizada, irá se afinar nas extremidades e terminar em dois nós. A metáfora implícita é a de rede de dormir, um detalhe quase sempre incluído nos mapas históricos do Brasil. Para um arquiteto moderno engajado como Costa, a flexibilidade e a multifuncionalidade dessa rede de dormir a tornam um vernáculo útil em seu imaginário (muitos desenhos de Costa mostram redes suspensas entre pilotis e em seu projeto para o Pavilhão Brasileiro da Trienal de Milão, em 1964, havia catorze redes suspensas do teto, rodeadas com panoramas de praias, de um lado, e da recém-inaugurada Brasília, do outro). Por mais extravagante que possa parecer esta interpretação, ela mostra que talvez, com um simples esboço, Costa codificou a capital brasileira como um momento inicial de monumental brasilidade. Eu ainda iria mais longe, propondo que: quem, melhor do que ele, não lembraria que a palavra Brasília significa Brasil em latim.
Farès el-Dahdah é professor de arquitetura na Rice University, Estados Unidos, onde coordena o programa de pós-graduação e dirige o projeto arkheBrasil, uma base de dados visual sobre a arquitetura moderna no Brasil. Organizou os livros Roberto Burle Marx 100 Anos: a permanência do instável (2009) e Brasilia´s Superquadra: Lucio Costa (2005). Recentemente, concluiu uma monografia sobre Lucio Costa, a ser publicada pela editora suíça Infolio.
"Lucio Costa estreia em literatura, fazendo urbanismo" (Rubem Braga, Correio da Manhã, Caderno B, edição de 24 de março de 1957). A grande contribuição de Lucio Costa (sem mencionar o plano como um todo) foi a concepção da superquadra. Invenção inspirada em sua própria obra, o Parque Guinle, no Rio de Janeiro. É, talvez, a maior, única e grande contribuição brasileira para o urbanismo do século 20. Rubem Braga, grande cronista carioca, captou como ninguém a rara delicadeza e sensível beleza do texto do Plano Piloto, texto que acompanhou o solitário "esboço" (prancha de 50 cm x 70 cm desenhada a lápis colorido e à mão livre), e que na sua extrema simplicidade exprime tudo que era essencial naquela etapa do projeto da Nova Capital. O "maquis" do urbanismo, que nem escritório possuía, não queria tomar o tempo de ninguém e cumpriu à risca o que prometeu na introdução do seu emocionante texto-memorial descritivo.
Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto, participou do concurso para Brasília aos 23 anos e foi professor da UnB de 1968 a 1970. O termo "maquis" foi utilizado pelo próprio Lucio Costa no texto de apresentação do Plano Piloto. A expressão, à época, designava grupos de resistência, e vem da resistência francesa na Segunda Guerra
Em 1960 o Brasil teve de ser definitivamente reconhecido em duas áreas tradicionalmente dominadas por países de longa tradição artística: no urbanismo e na arquitetura. Em Brasília, Lucio Costa realizou projeto nos moldes das recomendações do CIAM, mas com forte dimensão bucólica e sutis influências mais informais. Niemeyer aproveitou os espaços abertos do Plano Piloto para uma arquitetura que seguia os preceitos da "arquitetura internacional", mas numa versão mais ousada pelas formas surpreendentes e sofisticação estrutural. Brasília foi de grande relevância internacional no momento da sua inauguração, provou que não havia incompatibilidade entre arquitetura moderna de qualidade e construção governamental e monumental. Veio de um país em desenvolvimento que mostrou que era capaz de se inserir no main stream da arte ocidental. 50 anos depois, pode-se afirmar que o país manteve relevância internacional tanto na arquitetura quanto no urbanismo?
André Correa do Lago, diplomata e crítico de arquitetura
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