Nascido em 1936, o arquiteto paulista Decio Tozzi é um dos mais significativos representantes da recente arquitetura brasileira, da geração sucessiva à dos mestres Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Sua formação se desenvolve em São Paulo nos anos da construção da capital Brasília, lembrada pelo arquiteto como um período de intensos debates, ideias e projetos.
Tozzi abraça a visão crítica da escola paulista em relação ao programa racionalista, posto em discussão na forma e nos conteúdos pela sua abstrata rigidez e seu dogmatismo impositivo. A partir dessas considerações preliminares, o arquiteto desenvolve uma metodologia projetual genuína e sincera em que a expressão formal descende diretamente do estudo do programa funcional.
Como afirma o próprio arquiteto, o método seguido comporta uma concisa e lúcida análise crítica dos elementos projetuais que são elaborados pelo desenho, considerado como instrumento de reflexão e de compreensão sensível da realidade e da sua tranformação.
Profundamente ligado à realidade histórico-cultural do Brasil e preocupado com seu destino cultural, Tozzi pesquisa novas soluções formais e construtivas, na tentativa de responder às exigências da sociedade brasileira e de prevenir as futuras. Na procura de uma linguagem autônoma, realiza uma arquitetura de forte expressividade plástica com o uso do concreto armado e do vidro. Obra exemplificativa dessa primeira fase de projetos é a Escola Técnica de Comércio em Santos, de 1963. Construção de forte impacto expressivo, a escola revela de forma clara e direta a gênese projetual da poética do arquiteto paulista.
Constituída por uma poderosa estrutura portante de concreto armado, a escola se articula em quatro níveis, abrindo-se ao céu a receber a luz pelas claraboias prismáticas que coroam a cobertura. A estrutura de concreto armado torna-se expressão formal das funções acolhidas no interior do edifício, nas escadarias à vista das aulas-anfiteatro do último nível e no movimento livre das rampas e das plataformas suspensas de baixo.
O complexo sistema de iluminação zenital evidencia-se na seção do edifício, que mostra como a luz, penetrando das altas claraboias, ilumina as aulas do último nível e, passando no interior dos canais centrais, chega às aulas do nível inferior.
Outro exemplo do madurado domínio estrutural e formal no uso do concreto armado é representado pelo Estádio Distrital Baeta Neves, em São Bernardo do Campo, de 1971. Nesse projeto, a pesquisa de Tozzi se enriquece de novos aspectos, na interpretação paisagística do lugar, resolvendo o leve declíve do sítio em uma série de plataformas sobrepostas que acolhem os diferentes usos do complexo desportivo.
A instalação dos vestiários e dos locais de serviço nos ambientes inferiores aos terraços livra as superfícies dos campos de jogos, conseguindo unidade e linearidade nos diferentes espaços do complexo. A alta torre quadrangular de concreto armado, caixa d'agua dos tanques e das piscinas subalternas, e o leve disco de concreto armado, cobertura da bacia do estádio escavado debaixo, constituem os principais signos distintivos da intervenção, caracterizando formalmente os vários planos dos terraços de acordo com a função absolvida.
O espaço interno do complexo desportivo reflete, enfim, a atenção e a sensibilidade do arquiteto paulista no uso da luz natural que, filtrada entre as vigas da cobertura, chega a significativos efeitos de claro-escuro.
Os projetos residenciais da década de 1970 confirmam o prosseguimento da maturidade expressiva na arquitetura de Tozzi em relação à paisagem em que se inserem.
Os desenhos da paisagem e da arquitetura coincidem, estabelecendo um diálogo de grandes gestos curvos, como um ato de conhecimento do campo do projeto. As residências desse período, imersas nos luxuriantes vales e entre os morros da paisagem brasileira, acolhem o ambiente circundante, no andamento curvo das planimetrias, interpretando e exaltando o caráter bucólico dos lugares.
A residência Moraes Abreu, de 1976, em Valinhos, interior de São Paulo, alongada em forma de arco de círculo a recriar o desenho das curvas de nível, deita-se no declíve do vale, desenvolvendo à volta jardins, desníveis e espelhos d'água. A grande curva da cobertura relaciona os ambientes inferiores da casa com o amplo terraço da piscina, recriando o plano visual originário de observação do vale, com a curva dos vestiários e das salas de ginástica.
A disposição dos ambientes internos é definida pelo amplo espaço central da sala de estar em sequência com a sala de jantar e o pátio coberto, relacionando interno e externo por meio de grandes superfícies de vidro e das vigas diafragmadas de concreto armado da cobertura.
Igualmente, a residência Ferraz Carvalhal, construída em Ibiúna, interior de São Paulo, em 1977, desenvolve-se a partir de uma relação privilegiada com a paisagem circundante. Como revela o próprio arquiteto, a gênese compositiva da casa é reconduzível a "um primeiro gesto, curvo e sensual, o movimento da mão cava que descobre e revela a praça central acolhedora e generosa, definindo seu espaço pela ondulação dos morros em sua volta. Depois, o abrigo, uma curva - teto jardim - feito de transparências, sugere o passeio até o lago".
A residência Ferraz Carvalhal, no seu uso direto e expressivo da linha curva em relação à paisagem natural, colhe a essência da arquitetura moderna brasileira, atingindo a liricidade das composições paisagísticas de Roberto Burle Marx e a viva exuberância da Casa das Canoas de Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro.
Nas palavras de Niemeyer encontramos uma apreciação especial da residência Carvalhal no uso da "forma livre que domina, graciosa, acompanhando o terreno nas suas inclinações e desníveis".
Os anos de 1980 induzem Tozzi a verificar o próprio processo projetual em relação a temáticas mais gerais, ligadas às contemporâneas teorizações sobre a arquitetura da grande escala nas maiores realidades metropolitanas do mundo.
As grandes tranformações ocorridas nas metrópoles modernas contribuem à elaboração de uma nova visão da realidade, na qual a arquitetura constitui apenas uma das variáveis presentes. As transformações têm como causas os fenômenos da explosão demográfica e da subsequente urbanização, que determinam a carência de serviços e de infraestruturas, típicos dos países em via de desenvolvimento. Há, ainda, a terceirização das atividades produtivas, que tranforma grandes concentrações urbanas, como São Paulo, em enormes polos de informação e comunicação em uma rede global de trocas e relações.
Tozzi se declara consciente de participar de um momento de transformação da profissão, no qual é sempre mais necessário formular, antecipar e prever, por meio de estratégias integradas de intervenções arquitetônica, urbanística e paisagística, a procura de uma nova expressão da arquitetura e da cidade contemporânea.
No projeto do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, construído em 2004 na capital paulista, Tozzi procura uma alta concentração de funções urbanas com a sobreposição de conteúdos e usos diferentes em um único espaço compacto, capaz de gerar um forte efeito urbano correspondente à função pública do edifício.
Por uma precisa organização das áreas funcionais e das áreas de serviço, Tozzi articula agilmente os vários ambientes do Fórum à volta da grande praça central coberta, fulcro visual estratégico e distribuição de todas as atividades do edifício por meio das rampas de acesso e das torres dos elevadores que a delimitam.
A atenção no tratamento das superficies de concreto armado aparente é exaltada nos cantos e chanfros das torres angulares e na rude textura alternada dos painéis de revestimento interno.
O Parque Villa Lobos, em São Paulo, projetado pelo arquiteto a partir de 1987 (e com obras sendo construídas até hoje), estende-se por mais de 73 hectares e se desenvolve como um grande parque urbano dentro da congestionada metrópole de 15 milhões de habitantes. Diferentemente do parque Ibirapuera, o outro grande parque urbano de São Paulo, inicialmente concebido em parceria entre Roberto Burle Marx e Oscar Niemeyer, o parque Villa Lobos não se propõe a isolar o visitante da cidade e a se constituir como um espaço alheio e lugar de refúgios. Ao contrário, aceita a relação exclusiva com a cidade, interpretando de maneira atual e direta as exigências de uso contemporâneo da sua dimensão metropolitana.
Por meio de plataformas equipadas e de amplas superfícies multifuncionais, teatros ao ar livre, alpendres e espelhos d'água, Tozzi desenvolve a área do parque em uma série de planos lineares das perspectivas infinitas, estabelecendo relações óticas precisas com o skyline dos arranha-céus da avenida Paulista a leste, evocados na alta torre da caixa d'água, e da Cidade Universitária ao sul, incorporando nos seus espaços abertos o rumor de fundo quase tranquilizador da grande metrópole.
As nuas superfícies de concreto e os amplos espaços equipados do parque refletem uma visão paisagística contemporânea, confiante na capacidade crítica do cidadão no uso dos espaços e na expressão livre das suas exigências, que confere ao mesmo usuário a definição dos lugares, acolhendo elementos de causalidade e de irracionalidade no seu desenho minimalista.
A operação de simplificação da linguagem arquitetônica realizada por Tozzi na definição de uma arquitetura essencial de leves plataformas equipadas e diáfanas coberturas integradas na paisagem, desde o estádio de São Bernardo até as residências dos anos 70 e o parque Villa Lobos, encontra a sua mais feliz expressão plástica no Espaço de Celebração Papal em Maceió, de 1991. Aqui o arquiteto é chamado a projetar um amplo anfiteatro destinado a acolher a visita do Papa João Paulo II nos territórios pobres do nordeste brasileiro. Inspirado pela extraordinária beleza do lugar, Tozzi projeta o palco de celebração eucarística com o altar e a plateia para quatro mil espectadores em posição sobrelevada na frente da lagoa de Mundaú e das montanhas em redor.
A cobertura, uma levíssima estrutura espacial metálica com painéis acústicos de policarbonado, eleva-se luminosa e transparente em cima do palco, suspensa na paisagem exuberante da lagoa brasileira.
A contribuição de Decio Tozzi ao panorama arquitetônico contemporâneo foge das superficiais soluções formais da recente arquitetura globalizada, propõe uma pesquisa projetual honesta e correta que desenvolve de maneira atual os temas principais da arquitetura brasileira e os entrega às gerações futuras.
Francesco Santoro é arquiteto italiano, formado pela Universidade de Arquitetura de Palermo em 1993 e com especialização pela Frank Lloyd Wright School of Architecture, em Taliesin West, Arizona, Estados Unidos. Colaborou com os escritórios de Enric Miralles em Barcelona e com Marcos Acayaba em São Paulo, além de escritórios de arquitetura e paisagismo em San Francisco e na Itália. Colabora como correspondente em redações de revistas internacionais de arquitetura como L'Architettura, Cronache e Storia, Bioarchitettura e PressTletter.