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Crônicas Agudas


Conselhos
Creia
Por Sergio Teperman


Creia colega arquiteto, você que está envolvido diretamente na formação dos conselhos de arquitetura, como todos nós arquitetos que, embora indiretamente estamos interessados até a espinha, a medula e até o pescoço nessa tarefa eterna, aceite alguns conselhos.

Creia que é indispensável um conselho de arquitetura. Creia, no entanto, que em primeiro lugar um órgão de fiscalização é também, principalmente, de representação oficial da classe, conforme definido pelo governo e suas leis.

Por isso, Creia, caro leitor, que o mínimo que um órgão que nos represente, defenda e certamente fiscalize, tem de ter é consideração pelos profissionais e pela classe a ele sujeita, um atendimento que, se não pode ser pessoal, tem obrigatoriamente de ser profissional, cortês e principalmente eficiente.

Creia meu amigo que nosso órgão de fiscalização não pode incorrer em falhas que sucedem em entidades que possuem autoridade oficialmente delegada, portanto poderosas e muitas vezes insensíveis ao cidadão.
Então, por exemplo, Creia:
   
1) Um conselho de arquitetura é um órgão de fiscalização e não de arrecadação. Deve cobrar o justo para manter os seus serviços e não visar a lucros ou cobrir outros setores. Para isso existe a Receita Federal.

2) Portanto é necessário cobrar, naturalmente, mas cobrar por serviços prestados e não por serviços feitos pelos próprios arquitetos. Imaginem se a cada dente que for obturar, um dentista deva pagar a um órgão de fiscalização. Seria uma fonte enorme de recursos, mas Creia, fujamos dessa tentação.

3) Necessitamos de sedes bem projetadas e eficientes. Alugadas. E não vamos investir em prédios para renda com recursos tirados de nossos colegas.

4) Creia, nossos diretores devem ser profissionais do batente, do dia a dia, assessorados por profissionais executivos, preferivelmente arquitetos. Fujamos dos arquitetos profissionais de entidades, sejam elas municipais, estaduais, federais ou internacionais, porque embora bem-intencionados, não conhecem o dia a dia da profissão. Sindicalistas "puros" adoram esses empregos.

5) Remuneremos condignamente os colegas que devem se empenhar em tarefas que, embora indispensáveis, não são tão interessantes quanto um projeto. Porém que recebam simplesmente bons salários e não mordomias ou diárias de viagens, em geral totalmente desnecessárias e pretexto para a boa vida. E que também não usem o conselho como trampolim para cargos públicos.

6) Lembremo-nos que um órgão de fiscalização não se resume a ver se nossas anuidades foram pagas ou se nossas placas estão fixadas no local correto. Tampouco só investigar obras ou projetos depois que surgem os problemas.

7) Não custa sublinhar que fiscalizar uma profissão significa inclusive verificar se as contratações são corretas, se os valores correspondem à quantidade e qualidade dos serviços e não convalidar concorrências de preços e principalmente de serviços vergonhosos.

8) Fujamos à imaginação de incluir, nas concorrências de técnica, atestados "certificados" pelo órgão que criaremos, para não criarmos um balcão de facilidades, ou melhor, de imensas dificuldades.

9) Como a biodiversidade existe e não se pode exigir um mínimo de inteligência para todos, especialmente de alguns poderosos, vamos torcer para que os que introduziram os pregões eletrônicos para serviços de arquitetura e engenharia se recolham à sua indigência mental e voltem atrás.

10) Sejamos eficientes no atendimento aos profissionais que procurarem nossa entidade. Eles o fazem porque necessitam de atendimento rápido, profissional e educado.

Vamos dar atenção aos colegas que necessitarem dos serviços da entidade e não lhes dar respostas tipo SAC (Serviço de Agressão ao Consumidor) deixando pessoas longo tempo no telefone até a queda da ligação.

11) Não sejamos exclusivistas e aceitemos em nosso órgão de fiscalização arquitetos paisagistas, outros que se dedicam à comunicação visual, ensino, jornalismo e até engenheiros civis que elaborem projetos, da mesma forma que executamos obras.

12) E se eles quiserem posteriormente abandonar nossa entidade e criarem os seus órgãos de fiscalização e representação, não só deixemos que o façam, mas os incentivemos e com eles colaboremos nessa nova formação. Não vamos agir como maridos casados com o baú e que por isso não dão o divorcio à mulher, por mais traídos, desprezados e abandonados que sejam.  

Já projetei em um ano um grande centro de processamento de dados, com 25 mil m², contando com dois arquitetos além de mim no projeto. A obra foi construída por dois engenheiros civis e um de instalações e um dos engenheiros ainda usava meio período para fazer todas as compras de uma grande construtora. Para fiscalizar a obra dessa estatal, havia 17 fiscais!

Criemos um órgão profissional correto e eficiente para evitarmos a famosa frase adaptada: quem sabe faz, quem não sabe ensina, quem não sabe ensinar fiscaliza.

Se formos objetivos em nosso projeto de entidade teremos um eficiente CRA, o nosso Conselho Regional de Arquitetura, senão (sem ofender o urbanismo), Crau!!!.



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