Argamassas para revestimento Mais que estética Por Juliana Nakamura
Em projetos de restauração, a argamassa é a opção de revestimento mais indicada por permitir a reprodução de uma infinidade de tons e texturas. Tombado pelo Patrimônio Histórico, o prédio da Faculdade de Saúde Pública da USP, em São Paulo, foi recuperado com o uso de argamassa mineral hidrofugante que dispensou pintura posterior. O projeto é assinado pelo arquiteto José Costa, da USP, e foi execut
As argamassas são um dos insumos mais antigos da construção civil, e são também tradicionais como material de revestimento - especialmente pelo baixo custo em comparação com outros acabamentos, como os revestimentos cerâmicos e pétreos. Na última década, o desenvolvimento de argamassas mais sofisticadas, como as aplicadas em camada única, que dispensam a execução de chapisco, emboço, reboco e pintura, bem como de argamassas mais finas, que visam a substituir o gesso no revestimento interno, trouxeram um pouco de inovação em um segmento que não via grandes progressos praticamente desde a criação do cimento Portland.
Para atender a demanda dos projetos por variedade de padrões e texturas, outras novidades também apareceram, como as argamassas do tipo fulget, com aparência pétrea. O melhor domínio sobre os pigmentos, por sua vez, permitiu a ampliação da cartela cromática - há produtos disponíveis em mais de 300 tonalidades, ainda que quase todas sejam variações de tons pastéis.
Em escritórios como o do arquiteto Itamar Berezin, atualmente 90% dos empreendimentos residenciais são feitos com argamassa aplicada na fachada sobre chapisco. "O uso decorre mais de uma imposição de custo do empreendedor do que em função das características da argamassa", comenta Berezin.
Mas as exigências vão além da estética e dos custos - principalmente quando aplicadas em fachadas. O produto deve funcionar como um sistema que proteja as paredes da ação direta de agentes agressivos e que auxilie na estanqueidade e nas melhores condições térmicas e acústicas. Além disso, deve regularizar a superfície, seja como base para outro revestimento, seja como acabamento final.
Para desempenhar bem todos esses papéis, é necessário um projeto bem detalhado, que leve em consideração as características da edificação, o tipo de revestimento utilizado, a qualificação da mão de obra e as ações do meio ambiente. "Com as estruturas deformáveis de hoje, não dá para o projeto se limitar a especificar a cor e o tipo de acabamento, se será raspado, chapiscado ou travertino", diz Mércia Bottura de Barros, professora da Escola Politécnica da USP.
Segundo Mércia, a utilização da argamassa deve ser, antes de tudo, baseada em critérios técnicos. Alguns elementos merecem atenção especial. Juntas de dilatação devem ser sempre previstas conforme dimensionamento de tensões do edifício, por exemplo. Para a garantir a durabilidade do revestimento, recomenda-se usar tela metálica ou de fibra de vidro.
Esses elementos devem estar presentes na junção de materiais diferentes, como nos encontros entre estrutura e alvenaria, e nos bordos superiores e inferiores das esquadrias. Isso vale para todos os revestimentos com argamassa, especialmente para as monocapas, que têm menos espessura para se acomodar às movimentações estruturais.
Revestir com argamassa
AU convidou arquitetos, consultores, pesquisadores e fabricantes de argamassas de revestimento para discutir os aspectos críticos da especificação desse material. Confira como foi:
1. Jonas Silvestre Medeiros, consultor de fachadas e diretor da Inovatec 2 . Mércia Bottura de Barros, professora da Escola Politécnica da USP 3. Geraldo Feletto, gerente de vendas das Argamassas Argatex 4. Itamar Berezin, arquiteto titular do escritório Itamar Berezin 5. André Albieiro, arquiteto coordenador da Academia de Fachadas da Weber Quartzolit 6. Altamir Perottoni Jr., gerente do Negócio Argamassas Básicas da Votorantim Cimentos 7. Auro Maurício Faccio Tavares, diretor da Pavmix 8. Robertto Freitas, arquiteto titular do escritório Salinas & Freitas Arquitetos
Como vêm evoluindo as argamassas para revestimento no Brasil?
ANDRÉ ALBIEIRO Um sinal de evolução é a oferta de produtos como a argamassa decorativa à base de cimento, aplicada diretamente sobre a alvenaria, que elimina as etapas de chapisco, emboço e reboco.
ITAMAR BEREZIN Mas os construtores não estão aderindo muito ao revestimento monocamada em edifícios de médio e alto padrão. Talvez seja mais empregado no segmento popular.
ALBIEIRO O problema é que a maioria das construtoras não consegue deixar a fachada bem aprumada a ponto de viabilizar um revestimento fino como o de monocamada. Até por isso, temos direcionado essas argamassas para empreendimentos de alvenaria estrutural, que costumam apresentar maior planicidade.
ALTAMIR PEROTTONI JR. Infelizmente, ainda são raros os empreendimentos que dispõem de um projeto de fachada consistente. Isso é fundamental para garantir o desempenho estético e técnico da fachada, e para obter produtividade e durabilidade.
AURO TAVARES A falta de cumprimento das normas técnicas atrapalha muito. Por ser um fabricante de argamassa de revestimento, preciso respeitar a ABNT NBR 13.281 (Argamassa para Assentamento e Revestimento de Paredes e Tetos). Mas não entendo o motivo de a monocamada não ter que atender essa norma. Esse sistema vem sendo executado com 1,5 cm de espessura. Isso está completamente fora de norma!
ALBIEIRO A monocamada está dentro dos padrões para garantir o bom resultado. A gente segue uma norma europeia e uma referência técnica do IPT. Com isso oferecemos com segurança a espessura mínima de 1,3 cm e máxima de 3 cm.
TAVARES A monocamada é um revestimento externo ou não? Se for, a norma técnica de revestimento externo define a espessura mínima para garantir a estanqueidade e o desempenho térmico e acústico da fachada.
MÉRCIA BARROS No caso do revestimento, a norma prescreve uma espessura mínima de 2 cm porque não tem como avaliar o desempenho global da fachada. Mas a Norma de Desempenho, publicada em 2008 e que está entrando em vigor, fala em estanqueidade das fachadas. O que interessa é que o revestimento seja estanque ao longo da vida útil de 20 anos. Até a criação desta norma, foi importante estabelecer a espessura mínima porque havia problemas de fotografar os blocos e fissurar.
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