Valorizar passado e presente evidenciando o contraste de cada momento arquitetônico. Essa foi a opção dos arquitetos do escritório Piratininga ao projetar os interiores da empresa de advocacia Guedes Nunes Oliveira Roquim, localizada nos dois últimos pavimentos de um edifício da década de 1980 na zona Sul de São Paulo assinado por Paulo Mendes da Rocha. As linhas de Paulo Mendes foram não só preservadas, como recuperadas. E novos elementos e materiais foram acrescentados, como o vidro e a estrutura metálica.
Dirigida por quatro jovens advogados, a empresa ocupa dois pavimentos que somam quase 600 m² de área, incluindo um terraço. Gustavo Panza, um dos arquitetos responsáveis pela intervenção, conta que a mudança para o novo endereço foi motivada pela necessidade de ampliar o número de estações de trabalho, de salas de reuniões e da área de arquivamento. Entre as premissas de refletir a identidade corporativa estava a necessidade de passar austeridade e sobriedade, além de um interesse de fugir do lugar comum, explorando uma linguagem mais moderna, leve e ágil. Outro desejo dos clientes era manter o andar como estava originalmente, com a exposição de elementos da estrutura, como a laje nervurada aparente e as calhas técnicas metálicas.
O programa exigia muitos ambientes compartimentados pelo caráter confidencial dos assuntos tratados no escritório - demanda que se contrapunha à ideia inicial de manter as características arquitetônicas do imóvel o mais próximo possível do original. Para complicar, o pé-direito do andar inferior era de apenas 2,20 m no ponto mais baixo, o que dificultava a utilização de soluções como piso elevado e forro rebaixado.
A saída foi manter a laje nervurada e as calhas técnicas, criando uma estrutura metálica auxiliar para suportar as divisórias necessárias para a compartimentação dos ambientes, composta por um grid metálico atirantado na estrutura de concreto. Às vigas de aço, que chegam a vencer um vão de quase 8 m, foram fixadas divisórias de gesso acústicas e painéis corrediços de vidro que fazem a vedação das salas para a área comum, sem comprometer a transparência. Para proporcionar ainda mais leveza, as vedações foram feitas com painéis sem montantes, com juntas secas.
Essa solução está presente nos dois andares. No pavimento inferior, serve aos advogados seniores e às salas de reuniões. No superior, a estrutura metálica compartimenta a sala dos sócios e a sala de reuniões principal, com capacidade para 14 pessoas. Dependendo do nível de privacidade desejado, os ambientes são fechados por painéis, ora transparentes, ora opacos. A iluminação ajuda a reforçar o caráter independente da caixa criada pela estrutura metálica e evidencia a distância entre a laje e a estrutura auxiliar. Com isso, a diferenciação entre antigo e novo fica evidente. Tudo o que faz parte da nova intervenção fica visualmente descolado da estrutura original e recebe pintura branca. Já os elementos da estrutura antiga permanecem da forma como foram criados, com concreto aparente e, no caso das calhas técnicas, com pintura preta.
Essa estratégia já havia sido explorada pelo próprio Mendes da Rocha no projeto realizado em 1996 para o Centro Cultural da Fiesp, na Avenida Paulista. No térreo do edifício de Rino Levi, o arquiteto capixaba propôs uma nova distribuição dos espaços marcada por estrutura metálica branca presa aos grandes apoios de concreto. Integração e fluidez No andar inferior, o contêiner formado pelas estruturas metálicas ocupa cerca de 1/3 da parte central da laje. De um de seus lados está o núcleo de serviços, com sanitários e copa. Do outro, foi criada uma área open space para o staff. Com mesas-plataforma modulares, esse ambiente abriga 16 postos de trabalho, mas pode ser ampliado para 24 e até 36 posições.
Correndo paralelamente à estrutura de concreto, as calhas técnicas originais, que abrigam saída de insuflamento de ar com controle por região, cabeamento elétrico e suporte para iluminação, foram mantidas. Para complementar a iluminação e a distribuição de ar, novas calhas foram construídas com chapas de aço brancas.
A comunicação entre os dois andares é feita por uma escada instalada em um vão existente no projeto original e recuperado na reforma - construída em forma de cascata, é feita de chapas de aço. Um perfil tubular contínuo percorre o rodapé até chegar ao topo da escada, onde se transforma em guarda-corpo no piso superior e volta ladeando a escada novamente, desta vez na função de corrimão. Ao lado da escada, uma estante de livros também de chapas metálicas acompanha o pé-direito duplo do vão e funciona como elemento de integração entre o andar do staff e o andar da diretoria.
Por todo o escritório, o que se vê são materiais simples, mas especificados com algum propósito técnico e/ou plástico. O piso, por exemplo, foi executado com cimento queimado totalmente monolítico, sem juntas, em uma clara referência ao piso original. Nas regiões que demandavam maior absorção acústica, foram especificados carpetes. Um pouco mais de luxo foi adicionado ao setor de armazenamento, evidenciado por uma parede de vidro serigrafado preto. "Junto com a estante de livros, esse é um dos setores mais emblemáticos em um escritório de advocacia, por isso, pensamos em algo que simbolizasse a pedra do saber e tivesse uma aparência mais mineral", comenta Gustavo Panza.
No terraço, uma das principais mudanças foi a colocação de piso elevado, que permitiu manter a impermeabilização existente e sombrear a laje do piso inferior. A área é complementada por um projeto de paisagismo que prevê uma vegetação mais densa na fachada oeste para proteger as salas da diretoria da insolação, que têm grandes aberturas de vidro. Já na fachada leste, diante da vista para o Parque do Ibirapuera, a escolha foi por uma vegetação mais discreta, que não obstrui a generosa a vista.
SLIGHT CONTRASTS
Valuing the past and present by enhancing the contrasts in each architectural moment. Such was the option of the Piratininga office architects in designing the insides of this law firm located at the two top floors of an '80's building signed by Paulo Mendes da Rocha. The program required many compartmented ambiances - a demand that was against the initial idea of keeping the building's architectural characteristics the nearest possible to the original. To make it more complicated, the ceiling height of the 11o floor was only 2.20 m, which made it difficult to use high floor and ceiling alternatives.
The solution was to keep the nerved slab and technical trusses, and to create a metal structure to accommodate the ambiances compartmenting partitions, composed by a stayed metal grid in the concrete structure. Acoustic plaster partitions and sliding glass panels were fastened to the steel beams. Differentiation between old and new became evident. All that is part of the new intervention disconnects visually from the original structure and is painted white. Communication between the two floors is made by a stairway installed in an existing void in the original project and recuperated in the refurbishing. At the side of the stairway there is a metal sheet bookshelf accompanying the void's double height and functioning as an integration element between the floors.