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Interseção


As soluções da arquitetura tropical em Recife, por Adriana Freire


Em 1943, Philip Goodwin organiza a exposição sobre arquitetura brasileira no Museu de Arte Moderna de Nova York e escolhe exemplos significativos da arquitetura moderna no País, colocando em evidência os mecanismos de controle solar e a adaptação dessa arquitetura ao meio ambiente. Em 1952, Giedion publica um artigo na revista L'Architecture d'Aujourd'hui, explicando a contribuição da arquitetura brasileira ao movimento contemporâneo. "Qual é a contribuição da arquitetura brasileira ao movimento contemporâneo? Em minha opinião, são três elementos: em primeiro lugar, a generosidade do desenho e da construção; em segundo lugar, trazer soluções simples para problemas complexos, sem excluir a necessária organização, mas sem estar dominada por ela; e decerto a contribuição mais importante para a arquitetura contemporânea: o senso que permite animar as grandes superfícies por estruturas vivas e multiformes" (Giedion, 1952).

Edifício do Instituto de Antibióticos (1953) em Recife, do arquiteto Mario Russo. A fachada principal apresenta uma inclinação decorrente dos balanços, gerando fechamentos que reforçam a tensão entre as partes. O volume do auditório destaca-se apresentando uma inclinação contrária à do volume principal e um tratamento plástico com cobogós cerâmicos vitrificados
Para Giedion, o tema fascinante dessa arquitetura é o invólucro, com a variedade de detalhes técnicos que definem o projeto do ponto de vista estético e formal. O discurso de Giedion parece ter orientado toda a temática desse número da revista dedicado ao Brasil, onde os fechamentos tornam-se os elementos de destaque dos projetos, sendo apresentados para evidenciar suas qualidades plásticas e funcionais.
Em 1981 Bruand retoma o tema e, quanto aos procedimentos naturais de combate ao calor e ao excesso de insolação, afirma que: "são seguramente os mais importantes, porque, além de terem sido empregados com maior frequência, contribuíram para assegurar caráter próprio à arquitetura contemporânea no Brasil, diferenciando-a, assim, da arquitetura de outros países" (Bruand, 1981).

Bruand apresenta a ênfase no regionalismo e a discussão sobre a relação da arquitetura com o lugar, afirmando ter sido esse o fator determinante para a definição de um estilo brasileiro. Mas sua contribuição deve-se ao fato de sugerir tendências distintas resultando em variações desse movimento, inicialmente liderado por Lucio Costa, distinguindo dois grupos regionais nitidamente distintos: de um lado, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e do outro, um movimento paralelo, desenvolvido no Nordeste do País, onde Recife deu uma contribuição de grande interesse. É nessa produção de Recife que iremos fixar nosso estudo analisando particularmente as soluções de fechamentos. Alguns questionamentos foram formulados no início desta pesquisa: como a arquitetura moderna de Recife incorpora novas práticas construtivas adaptando-as às condições climáticas locais? Como essas soluções participam na composição formal desses projetos? Até que ponto a fusão entre tradição e modernidade interferiu na criação desse novo padrão estético?

Painel de cobogós de cerâmica vitrificada com coloração rosada permite um jogo de luz no interior no Instituto de Antibióticos (1953)
O período de consolidação da arquitetura moderna no Recife, entre 1950 e 1970, está relacionado à capacidade de alguns arquitetos notáveis em adaptar o vocabulário formal da nova arquitetura às peculiaridades do clima local. Foi graças ao olhar atento sobre a tradição construtiva que esses arquitetos conseguiram pensar uma arquitetura coerente com os avanços técnicos daquele tempo e adequada ao clima e à cultura da região. Esses procedimentos foram utilizados por arquitetos como Luís Nunes, Mário Russo, Delfim Amorim, Acácio Gil Borsoi, Heitor Maia Neto, Maurício Castro, Reginaldo Esteves e Marcos Domingues.

A produção merece destaque por suas soluções de fechamentos, o rigor com detalhes construtivos e critérios plásticos e funcionais, onde a preocupação em buscar soluções climáticas é o ponto principal. Exemplos em grandes proporções daqueles elementos da arquitetura tropical, como brises, cobogós, gelosias, buzinotes, persianas e materiais cerâmicos utilizados para animar superfícies de fechamentos vão adquirir uma importância maior no cenário da arquitetura local.

Cobogós

Os brises da fachada poente no Instituto de Antibióticos (1953) enquadra o ângulo de visão, com acabamento de chapisco esverdeado
A modernidade arquitetônica no Recife foi introduzida pelo arquiteto Luís Nunes. Formado em 1933 pela Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, chega a Recife em 1934 convidado pelo governo de Pernambuco para desenvolver uma série de trabalhos junto à Secretaria de Obras Públicas. Resultado de sua atuação foram as obras da Escola Rural Alberto Torres (1935), o Pavilhão de Verificação de Óbitos (1936) e a Caixa d'Água de Olinda (1936). Trabalhou em Recife de 1934 a 1937. Como nesse período não podia contar com uma produção industrial, Nunes buscava soluções construtivas adaptando as técnicas artesanais locais e conseguindo resultados plásticos de grande significado. Nesse contexto, sua contribuição mais importante foi a utilização de blocos vazados conhecidos como cobogós.

Esses elementos, antes da atuação de Nunes, eram utilizados para a construção de paredes opacas e de baixo custo. Luís Nunes e sua equipe começaram a utilizar esse material em estado bruto em uma espécie de painéis vazados, garantindo a ventilação e a proteção dos espaços interiores.

O exemplo mais significativo é o projeto da Caixa d'Água de Olinda. Os cobogós foram utilizados como fechamento nas duas fachadas principais do edifício, permitindo a passagem de ar e reduzindo a pressão dos ventos sobre a estrutura (Gomes, 1988). O aporte construtivo dessa obra foi a utilização dos cobogós e o efeito plástico produzido pelos fechamentos. A sobriedade do volume arquitetônico foi suavizada pelos cobogós que compõem as fachadas longitudinais, estampando rendilhados delicados e transmitindo uma sensação de leveza.

A equipe de Luís Nunes trabalhou com o modelo que originou a produção em série das peças de cobogós, incorporando esses elementos em grande parte de suas obras. Tal elemento consiste em um bloco de cimento de 50 cm x 50 cm com 10 cm de espessura, vazados por pequenos orifícios retangulares. Esses elementos foram explorados por arquitetos da região e posteriormente adotados nas obras de arquitetos modernos brasileiros, como Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Reidy.


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