O processo de certificação ambiental - seja de uma casa ou de edifício - exige um conjunto de documentos, que vão de projetos e memoriais até fotos da obra em andamento, além de auditoria em obra. A certificação ambiental de projetos de arquitetura representa o reconhecimento, por exemplo, de sistemas construtivos de baixo impacto ambiental, economia de recursos naturais (água e energia), baixa manutenção e conforto e saúde dos usuários.
O registro do pedido em uma entidade certificadora é a comprovação oficial de que o projeto está em processo de certificação. O GBC Brasil (Green Building Council) e a Fundação Vanzolini são alguns dos organismos que conduzem certificações no Brasil - respectivamente, os selos Leed e Aqua.
Cronograma
O processo de certificação pode variar de acordo com o organismo certificador. Para o registro do selo Aqua, por exemplo, é importante que o empreendedor defina, em parceria com os projetistas e com a assessoria do consultor do selo, o programa técnico ambiental do empreendimento. Os trabalhos começam, preferencialmente, a partir da fase de anteprojeto. "Toda a documentação, em português, é feita pela assessoria Aqua",
explica Ana Rocha, diretora da empresa Proactive, consultoria especializada em gestão de projetos sustentáveis.
Os principais documentos para solicitação do certificado Aqua são caracterização do empreendimento, finalidade, área, programa funcional, análise do local, definição e comprometimento do empreendedor com um perfil da qualidade ambiental, descrição do sistema de gestão do empreendimento e autoavaliação da qualidade ambiental, definidos em 14 categorias de desempenho.
O processo de auditoria do selo Leed é dividido em duas etapas: a fase de projeto e a de obras, que podem ser auditadas separadamente. A fase de projetos dura em média três meses e a de obra, de três a seis meses após sua conclusão
. A edificação precisa atender a uma pontuação mínima em itens como localização e implantação do empreendimento, redução no consumo de água, redução no consumo de energia, utilização de materiais ambientalmente adequados e qualidade interna dos ambientes.
Hoje, são 69 critérios para o Leed e cada um vale um ponto. Com 26 pontos, o prédio está de acordo com as preocupações de sustentabilidade e recebe a certificação Leed básica. De 33 a 38 pontos, recebe o certificado prata. Com 39, recebe o ouro. A partir de 52 pontos atinge-se a certificação máxima, de platina.
A verificação da conformidade do projeto junto ao Referencial Técnico Aqua ocorre ao final de cada fase do empreendimento, conforme seu cronograma, com auditorias presenciais e avaliações dos resultados pela Fundação Vanzolini.
Um edifício pode ser certificado por um ou mais selos, pois muitas vezes suas premissas de qualidade ambiental são as mesmas. As diferenças estão no aspecto das distintas avaliações e auditorias. Há exemplos de edifícios na Europa, como o Tour First, no distrito de La Défense, em Paris (dos arquitetos Kohn Pedersen Fox e SRA), que terá certificação HQE (França, equivalente ao Aqua), Breeam (Inglaterra) e Leed (Estados Unidos).
"As empresas que procuram escritórios corporativos sabem e valorizam cada vez mais a certificação ambiental. Os certificados servem como diferencial e temos projetos com certificação dentro e fora do País", afirmam Joaquim Rondon e Luiza Junqueira, arquitetos do escritório Davis Brody Bond Architects Brasil, responsáveis por edifícios como o da fábrica da Valeo, em São Paulo (
AU 179).
Custos e impactos
O custo adicional da certificação tende a ser amortizado pela economia no consumo de água, energia e materiais ao longo da vida útil do edifício. Os custos também podem variar de acordo com o nível de certificação que se deseja alcançar.
De acordo com os especialistas ouvidos por
AU, a certificação ambiental aumenta o custo de um empreendimento de 5% a 10%. "Quanto maior o porte da obra, menor o impacto desses custos no orçamento do empreendimento", diz Marcio Porto, arquiteto do escritórioSidonio Porto Arquitetura e autor do livro O processo de projeto e a sustentabilidade na produção da arquitetura, da editora C4.
Um projeto com certificação também pode demorar mais para sair do papel - estima-se que demore, no máximo, 30% mais em relação a um projeto convencional. Isso porque é preciso haver uma maior retenção na concepção e na execução dos projetos, com a participação de uma equipe multidisciplinar com conhecimentos detalhados dos locais de implantação.
Por outro lado, estudos do grupo de Real Estate da Poli-USP indicam que o aumento do valor de venda de um Green Building pode chegar a 20%. Enquanto o valor do condomínio tem redução média de 30%, em cálculo que leva em conta as reduções do consumo de energia, água e do custo operacional do edifício (manutenção e reformas).
Consultoria
Há profissionais especializados que podem coordenar o processo de certificação. "Os consultores podem ser encontrados nas regiões onde existe maior concentração de empreendimentos certificados. Porém, com todos os recursos tecnológicos, é possível prestar serviços de consultoria em todo o Brasil com um volume mínimo de deslocamentos", diz Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech Engenharia e consultor para o processo Aqua.
Além da tradicional indicação, uma das maneiras de encontrar bons profissionais é pela pesquisa de palestras e artigos escritos pelos próprios consultores. Para auxiliar essa busca, as organizações divulgam listas de especialistas. A Fundação Vanzolini, por exemplo, deve publicar em seu site, em breve, uma relação de consultores credenciados e suas respectivas qualificações (www.vanzolini.org.br). O GBCB também divulga em seu site (www.usgbc.org.br) a lista de arquitetos Leed-AP's, que são qualificados pelo USGBC a prestarem consultoria - atualmente, são 68 profissionais no Brasil.
Cursos e especializações
Para ser um profissional especializado em certificação ambiental é possível fazer cursos ou prestar exames. O Leed Accredited Professional - que avalia profissionais - é emitido após um exame. O curso não é obrigatório, apesar de aconselhável. O GBC Brasil, por exemplo, promove cursos de aplicação das ferramentas de certificação Leed, sobre as metodologias, os conceitos e critérios exigidos. Já a consultoria Proactive oferece cursos in company para as empresas interessadas em projetar de acordo com a certificação Aqua.
"Os cursos Aqua não ensinam a fazer projetos, mas a avaliá-los, de forma interativa, ao longo do seu desenvolvimento, permitindo correções de rumo, se necessário, para um resultado ao mesmo tempo melhor e mais econômico", diz o Manuel Martins, professor da Fundação Vanzolini. Um profissional com o curso Aqua obtém um registro com critérios de formação, treinamento e experiência, além do compromisso com um código de conduta.
"Os sistemas de certificação são muito parecidos e têm o mesmo objetivo, que é o de transformar o setor da construção sustentável em prol da sustentabilidade, para redução de impactos ao meio ambiente", diz Marcos Casado, gerente técnico do GBC Brasil.
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