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Crônicas Agudas


Eu era assim
Museu dos museus

Por Sergio Teperman


A palavra museu cheira a mofo ou cheirava. Mofava. O que hoje se chama museu guarda pouquíssima relação com os do passado. E se guardar muita relação, cuidado. Pode se tornar um local para observar moscas. Por outro lado, surgem (ou pululam) centros culturais. Qualquer lugar com uma minibiblioteca, um antigo projetor super 8, um boteco e uma mesa de sinuca vira centro cultural. Certos edifícios caindo aos pedaços, de valor arquitetônico discutível, são "preservados" e como o prédio não serve para mais nada na vida moderna vira "Centro Cultural".

Entendo que um verdadeiro centro cultural, com exposições temporárias e permanentes, cinema, bar, mediateca, etcetriateca represente um conjunto de atrativos mais adequados à vida moderna, ainda que isso ofenda os puristas. Mas cultura, ainda que em pequenas doses e com conteúdo digamos rarefeito, é mil vezes melhor para uma população diversificada do que nada, mesmo com o risco desses locais ficarem parecendo shopping centers. Felizmente, não só com shoppings centers, que são de uma arquitetura para lá de lamentável, mas também com os museus de hoje.

Os "museus" de hoje apresentam duas características marcantes: a interatividade entre o que é exposto e o visitante (mérito da eletrônica) e outra muito mais visível e importante: a esmagadora maioria das obras de arte produzida até a metade do século passado (quando a grande arte parou) está exposta em museus do tipo tradicional, clássico. E para felicidade geral das nações, quando a arte tradicional e mesmo moderna de boa qualidade com A-maiúsculo começou a desaparecer, a arquitetura tornou o seu lugar.

É muito difícil que as obras de "arte" atual cheguem perto da qualidade, da criatividade e do espaço que as alojam, fruto também de um enorme avanço tecnológico que tudo permite. É importante mencionar que, ao contrário de quase todas as outras tipologias de edificações, na qual o aspecto funcional é determinante para a solução arquitetônica, em um edifício que representa a cultura, e que, portanto, tem a liberdade como conceito fundamental, o espaço arquitetônico é o que domina e comanda a vida.

O primeiro arquiteto moderno que intuiu esse conceito foi Frank Lloyd Wright, com o seu Guggenheim de New York e, por que não?, Niemeyer com a Oca. Mas ninguém se lembra de pensar que, se Wright conseguiu criar e construir esse espaço, houve um cliente inteligente e de mentalidade aberta que aceitou o projeto e pavimentou o caminho para todos os extraordinários edifícios culturais que hoje se espalham por todo o mundo. Certamente ainda existem em maior quantidade os palácios que alojam os grandes museus do globo, mas mesmo nesses locais, e isso décadas atrás, já se viam formas diversas de expor grandes obras de arte. Ficaram gravadas na minha memória as salas de entrada da Galleria Degli Uffizi em Firenze (quando dava para entrar, sentar e passar o dia) onde estão expostas de maneira brilhante e atual, com iluminação precisa, as obras primas de Botticelli.

Mesmo em lugares "sagrados" a arquitetura moderna se impõe, a contragosto dos tradicionalistas. Os franceses trouxeram (para não dizer afanaram) meio Egito para o Louvre, além do obelisco de La Discorde, e já que as pirâmides eram um pouco pesadas, nada como encomendar uma levíssima pirâmide para o sino-americano I. M. Pei. Há uma famosa entrevista do arquiteto em que os franceses, com sua tradicional mão de vaca, reclamam dos honorários que Pei recebeu. Resposta sensacional: "In architecture I am free, but in fees, I'm not free, I AM PAY (I.M.PEI)". Portanto, nada de estranho o estardalhaço (justificado) em torno dos museus de Zaha Hadid e especialmente de Frank Gehry (vulgo Gerristein, sua mulher judia e adepta da cabala o fez mudar de nome para ficar famoso e não é que deu certo?).

E tome hotel em La Rioja, museu do Rock e o Guggenheim de Bilbao que, lembrando Mies, também saíram das mesmas cópias heliográficas. Mas todos esses edifícios comprovam o que um espetáculo arquitetônico pode fazer a uma cidade estética e financeiramente - Bilbao, uma cidade totalmente desinteressante, gastou cem milhões de dólares no museu e recebeu infinitamente mais com os visitantes.
É sempre necessário lembrar dos pioneiros - entre eles, os superstars como Alvar Aalto. Em sua homenagem, os arquitetos do escritório projetaram um museu Alvar Aalto que é uma aula interna e externa de arquitetura. Um megaedifício que expõe arquitetura dentro de arquitetura, em Jyväskylä, Finlândia, onde está a maior parte de suas obras, ao contrário dos cabeças-duras, como Mies van der Rohe, que projetou a Galeria Nacional de Berlim provavelmente usando uma cópia heliográfica do Illinois Institute of Technology ou de alguma fábrica da Caterpillar.

Mas Berlim tem também uma vingança pré-Mies: se os franceses não conseguiram trazer as pirâmides, os alemães transportaram as edificações de Pergamon para a ilha dos museus e só quem viu esses edifícios enormes é capaz de acreditar na proeza (e o roubo).
Acredito que esses museus estáticos estejam perdendo espaço (mesmo ocupando muito espaço) para os "centros culturais multifacetados" no sentido real (arquitetônico) e figurado, como variedade de atividades. Um ótimo exemplo de museu interativo é o Museu do Futebol, no estádio do Pacaembu, em São Paulo (de Mauro Munhoz). Novos e recentes museus que sejam mamutes arquitetônicos ou se reciclam ou acabarão no mofo, como no início deste artigo. Vão terminar no "Museu dos Museus". 
 
   
 
 
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