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Crônicas Agudas


Ego Trip
Uma longa história do tempo

Por Sergio Teperman


Quando comecei a escrever para AU jamais imaginei que tanto tempo passaria e que eu terminaria em me transformar em uma espécie de móveis e utensílios da editora. Antes de AU eu tinha tido uma experiência profissional em jornalismo que hoje considero inacreditável. Depois de seis anos de andanças com bolsas de estudos ou empregos em escritórios de arquitetura na Europa, tive a infeliz (na época) ideia de voltar ao Brasil e em época de crise (mais uma), 1966. Minha manager mãe sabia que começar em arquitetura iria ser difícil e convenceu um primo que dirigia a área comercial de uma conhecida editora de publicações técnicas (Serpel) a me dar uma oportunidade. A editora vivia de seu carro-chefe, a revista Médico Moderno, e seu proprietário, um visionário, o Sr. Robert Lund (pai do Chris Lund, ex-presidente da Amcham) entendeu que o Brasil comportaria muito bem uma revista de arquitetura e engenharia do melhor nível. Uniu na área de redação Muriel Rossi Carril, já editor do Engenheiro Moderno e Paulo Graciano, economista, um dos Delfim Boys. E assim, tendo escrito apenas um artigo em toda a vida (Arquitetos Estrangeiros na Finlândia para o principal jornal de Helsinki), de um dia para o outro, sem jamais ter escrito outra coisa, virei não só articulista do jornal, mas, juntamente com o Muriel, editor de uma revista.

Não uma revista qualquer, mas uma de arquitetura e engenharia em que o texto era só complemento de desenhos, cálculos, fotos etc. E não é que conseguimos editar uma bela revista com periodicidade mensal, em três meses? O que produzimos em um ano deu para dois e, no final, o proprietário se deu conta de que o mercado publicitário da construção na época não tinha nada de comparável ao mercado da medicina e dos laboratórios e fechou a revista. Alguns anos depois, outro idealista, Vicente Wissenbach, a pedido de seu cunhado, Alfredo Paesani (então um dos fundadores e primeiro presidente do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo), foi encarregado de montar o jornal do sindicato. E Paesani lembrou-se de minha ex-periência, e assim, Maria Helena Flynn, Ana Maria Dente, Cecília Scharlach, Helene Afanasieff e eu fomos encarregados de auxiliar arquitetonicamente o Vicente na edição do jornal, que passou a se chamar Arquiteto, e tinha como jornalista responsável o Fábio Penteado.

Resumo da conversa: depois de algumas semanas, ficamos só Vicente e eu, e o Vicente estaria até hoje discutindo os termos do contrato do jornal com o IAB/Sindicato, se não tivéssemos aberto os olhos - não para editar ou publicar, mas para obter um contrato!!! O Vicente se cansou, tocou tudo sozinho, resolveu fazer uma revista, chamou o Arlindo e a revista Projeto aí está, como um Real Madrid competindo sadiamente com outra revista, a nossa Barcelona, que o arquiteto e jornalista Mario Sergio Pini se encarregou de transformar na revista de arquitetura com maior número de assinantes no País. Um fato respeitável. Na montagem da equipe, o amigo Marcio Mazza sugeriu meu nome ao Mário, o qual topou na hora, e é assim que conto mais uma história com esta crônica, o que há tanto tempo faço em AU - aquilo que em jornalismo chamamos de "escrevo e preencho a folha de trás dos anúncios".

Assim, depois de 25 anos de AU e alguns outros do jornal Arquiteto, consigo explicar como um salto de paraquedas me colocou nesta realmente divertida e interessante área que é o jornalismo de arquitetura. Como são matérias estanques, fechadas, pesadas e difíceis, a maior dificuldade está justamente em tornar a edição interessante para o leitor, mais do que para quem escreve. Se um artigo não for instigante para o leitor, para que então foi escrito? Haveria muito a contar, e seria de grande valia transcrever as transformações pelas quais AU passou em todo esse tempo. Raro em revistas de arquitetura, nas quais o design gráfico e o visual mudam com frequência e a orientação editorial se mantém, AU teve a originalidade de mudar muito menos em visual do que em conteúdo, e provavelmente continuará nessa linha, que é sair da linha.

Gosto tanto de escrever para AU, que me sinto na obrigação de puxar o saco dos patrocinadores para que continuem a anunciar, e dos editores para que me segurem e suportem (até no sentido inglês do termo). Mesmo gostando naturalmente muito mais de fazer projetos de arquitetura. Da minha parte continuarei a fazer os maiores esforços para que os assinantes de AU leiam os meus textos integralmente sem dormir no meio. Quando todos falam em abertura, transparência, liberdade etc. (palavras importantes mas que muitas vezes encobrem atitudes vazias), o que mais pode alguém que escreve pretender senão poder escrever o que lhe dá na telha ou na laje impermeabilizada sem receber espécie alguma de observação negativa dos editores ou, pior, censura? P.S.: Tinha pensado escrever sobre os 25 anos de AU. Preferi começar com uma historinha e depois entrar no assunto. O espaço acabou, fica para os próximos 25. Então era uma vez...
 
   
 
 
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