Como conciliar a rotina do escritório de arquitetura com o trabalho voluntário POR ANA CAROLINA LOURENÇON
A tarefa de ajudar o próximo pode parecer simples e fácil para alguns, mas requer organização, empenho e vontade. Principalmente se o trabalho voluntário é a elaboração de um projeto de arquitetura que exija do profissional - ou da empresa - a doação de horas de trabalho às causas sociais, sem que isso prejudique o andamento dos serviços prestados aos clientes do dia a dia.
Para o arquiteto Ricardo Julião, o ideal é tentar não misturar as duas atividades e organizar a rotina do escritório de forma que cada trabalho tenha o seu tempo e seja bem feito. "Toda semana eu reservo uma manhã só para me dedicar a projetos sociais. Neste horário tento ao máximo não ter que resolver nenhum problema de outros clientes", afirma.
Em 2003, quando soube que a Casa Hope, associação que dá apoio a crianças e adolescentes carentes com câncer, dispunha de um terreno de quase 4 mil m² para construir uma nova sede no Planalto Paulista, em São Paulo, decidiu mobilizar seus funcionários e colegas de profissão para doar o projeto arquitetônico para a instituição e, ainda, acompanhar a obra. "Contei com o engajamento de vários colegas do escritório que trabalhavam após o expediente para que o projeto acontecesse", lembra Julião. Deu certo: a nova sede foi inaugurada em maio de 2009, após dias, noites e fins de semana de intenso trabalho.
Há 14 anos, o arquiteto Roberto Loeb soube que Elie Horn, dono da construtora Cyrela, queria doar um terreno de 220 mil m² no bairro do Grajaú, em São Paulo. Juntamente com colegas de profissão, decidiu fazer o projeto de reforma da casa que lá se encontrava para o Projeto Anchieta, organização sem fins lucrativos que atende 600 crianças e cerca de 1.500 famílias da região, oferecendo refeições, creche, cursos de dança, música, artes, marcenaria, além de biblioteca para estudos.
"As crianças não moram lá, apenas passam o dia e aprendem a viver em comunidade e ter responsabilidades. Todo o dinheiro usado no projeto veio de convênios com a prefeitura e de pequenas doações", diz Loeb, que também é autor de projetos sociais como
Minha Casa, Minha Rua e Oficina Boracea, ambos em São Paulo. "Sinto-me satisfeito em ver que o meu trabalho ajudou a tirar pessoas do esquecimento. Mesmo com projetos simples é possível trazer dignidade para as pessoas", acrescenta o arquiteto.
A maioria dos trabalhos voluntários feita por arquitetos não para no projeto: se estende até o acompanhamento da obra. Não raro, o profissional precisa abdicar de assuntos de seu interesse pessoal para ter tempo de concretizar todas as funções com as quais se comprometeu. "Você perde muito do seu tempo, mas é só organizá-lo, assim como as tarefas do escritório, que fica possível de fazer", opina o arquiteto Silvio Heilbut. Silvio foi convidado pela comunidade judaica Shalom a participar da reforma da sede da OAT (Oficina Abrigada do Trabalho), que capacita jovens deficientes com serviços profissionalizantes. A antiga oficina ganhou novas cores, salas mais amplas e arejadas e novos ambientes que funcionam como gráfica e local para reciclagem de materiais. Para dar conta do recado, Silvio colocou uma arquiteta de seu escritório à disposição do projeto.
LEI DA AÇÃO E REAÇÃO
Marcelo Rosenbaum é conhecido por seus projetos sociais, na TV ou fora dela. Um de seus principais projetos, o A Gente Transforma, reuniu 35 estudantes de arquitetura e mobilizou os moradores do Parque Santo Antônio, na zona Sul de São Paulo, para a pintura de uma quadra, com tintas doadas pela empresa Suvinil. Também foi projetada uma biblioteca e um vestiário para o campo de futebol. "Sinto que há muito o que fazer e que não podemos parar, mas temos que tomar muito cuidado porque as pessoas não podem criar uma dependência da gente. É minha missão fazer esses projetos, me divulgo também: abro as portas pras pessoas e ao mesmo tempo elas fazem com que minhas portas se abram", afirma o designer.
ENVOLVENDO OS DEMAIS
Em 1999, os arquitetos Patrícia Chalaça e Marcelo Souza Leão convocaram construtoras, arquitetos e empresas do setor para reformar a Casa de Carolina, instituição do governo pernambucano que atendia crianças vítimas de maus tratos e abandono, no Recife. O projeto alcançou tanta popularidade que a dupla decidiu criar o Projeto Casa da Criança, organização composta por franquias de profissionais ligados à construção civil que desenvolvem trabalho social e beneficente para as crianças, mas, dessa vez, sem o auxílio do poder público. Para conciliar a rotina do trabalho com o projeto social, Patrícia e Marcelo, que além de sócios são casados, decidiram que ela se dedicaria exclusivamente ao Casa da Criança, enquanto ele tocaria o escritório de arquitetura.
TRABALHO ÁRDUO
O arquiteto Luiz Antonio de Jesus Júnior acredita que o trabalho voluntário precisa ter limites. Para o profissional, nem sempre é possível emprestar seu conhecimento para causas sociais. "No ano passado fui procurado para fazer um projeto de construção de uma igreja evangélica. Eu fui até o local, analisei o terreno, estudei o projeto e na hora que eu apresentei a proposta se negaram a pagar dizendo que eu deveria trabalhar gratuitamente, como voluntário. Neguei-me, não sou nem membro da congregação", relembra.
Júnior explica que, se a igreja o tivesse procurado já sob a condição de voluntariado, talvez tivesse aceito trabalhar de graça ou, então, cobraria um valor irrisório. "O trabalho social ocupa tempo e tem prazos assim como um cliente comum, mas, se a igreja já falasse a verdade desde o princípio, seria diferente. Eu poderia, inclusive, encaminhar a tarefa para alguma universidade que incluiria alunos de arquitetura no trabalho e seria vantajoso para as duas partes", afirma.
Ao contrário do que pode parecer, o trabalho voluntário exige profissionalismo e deve ser exercido com seriedade. "Uns dão dinheiro, brinquedos, ovos de páscoa e outros, como os arquitetos, doam todo seu trabalho e experiência, usando seus contatos e conhecimento para melhorar a vida das pessoas", explica Ricardo Julião. Além da Casa Hope, o arquiteto já realizou projetos para a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), Hospital do Câncer e Associação Alumni.
Para Roberto Loeb, o envolvimento nas causas sociais é sempre uma experiência gratificante que traz bons resultados. "Sempre acreditei que meu trabalho especializado poderia construir algo simples e trazer dignidade para as pessoas, tirando-as do isolamento e da solidão", finaliza o arquiteto.
Ser voluntário
n Reserve um momento da sua agenda para a realização do trabalho voluntário. O ideal é não misturar os projetos em andamento com o trabalho social
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A maioria dos trabalhos voluntários feito por arquitetos não para no projeto: se estende até o acompanhamento da obra. Conte com seus funcionários e colegas de profissão para cumprir esta etapa
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Trabalho voluntário ocupa tempo e tem prazos assim como um cliente comum
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Ao contrário do que pode parecer, o trabalho voluntário exige profissionalismo e deve ser exercido com seriedade
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No Brasil, a Lei no 9.608/1998 regulamenta o serviço voluntário e o define como "a atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza, ou a instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade.