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Crônicas Agudas


De São Paulo rumo à Firenze, na Itália, onde cursou arquitetura, Sérgio Teperman compartilha suas experiências de viagem pela Europa
De São Paulo a Firenze

Por Sergio Teperman


O voo parte às 17h de São Paulo levando quem? Eu.

Daí Rio de Janeiro, Recife, Lisboa, Zurique e Amsterdã, onde chega à meia-noite do dia seguinte. O avião é um velho DC7 a pistão, que está sendo substituído pelos novos DC8 a jato.

Os ingleses tentaram lançar antes os Comet, mas como a metade caía, os passageiros ficavam meios desconfiados e o avião não (de)colou; tinha um defeito estrutural e foi retirado de circulação, acabando com os aviões a jato comerciais na Inglaterra.

O voo continuará, na parte da tarde, para Dusseldorf e Roma, ponto final do trajeto.

Como o voo saía às 14h, tive a oportunidade de fazer um dos mais extraordinários passeios até hoje: o famoso tour de barco, pelos canais e abaixo das baixas pontes da cidade plana de Amsterdã. É indescritível a sensação de beleza, calma, tranquilidade, unidade arquitetônica que é transmitida neste passeio, e que me deixou simplesmente assombrado.

Felizmente as refinarias holandesas estavam em Roterdã e assim Amsterdã foi poupada dos bombardeios, para se tornar a meu ver a cidade mais bonita do mundo.

Chegando a Roma, dirigi-me ao Civis, um alojamento enorme, moderníssimo, no bairro novo onde se situa o Ministério de Relações Exteriores. Devem caber uns mil estudantes neste alojamento e esta foi minha primeira casa na Europa.

O mês era dezembro e as aulas começavam em janeiro, em Firenze. Assim, passei um tempo em Roma visitando museus, castelos, monumentos com o meu passe de entrada grátis, evidentemente evitando restaurantes, porque tinha que pagar. Só comia no restaurante do Civis, que para mim era gratuito e a comida, só pior do que a do restaurante da cidade universitária de Paris. Sou, portanto, o único sujeito que conseguiu comer mal em Roma e em Paris.

Alguns dias depois, com o dinheiro da venda do carro no Brasil, comprei um Fiat 500: esportivo, aerodinâmico, superdesign avançado, conversível e mesmo na Itália chamava a atenção por onde passava e custava mil dólares.

Na noite do mesmo dia, encontrei o arquiteto Eduardo de Almeida, que viria a se tornar meu grande amigo e companheiro de museus, passeios, concertos e viagens. Eduardo tinha, por conta da bolsa de estudos, feito o mesmo trajeto aéreo e tido o mesmo deslumbramento com Amsterdã.

Algumas semanas depois, Eduardo e eu iniciamos nossa viagem para o destino escolhido, Firenze, mandando inclusive as malas de trem, porque no carro não cabia nada (a pequena Bianchina, desenhada por Innocenti, tinha motor 500 e fazia no máximo 100 km/h em descida vertical).

Chegamos a Firenze de noite, totalmente perdidos. Perguntamos a um senhor na rua onde ficava a via Vittorio Emanuele e como o cara disse que ia para essa rua, lá fomos os três, apertados na Bianchina. Quando estávamos chegando, perguntamos se conhecia a Villa Fabricotti e ele disse: "mas é lá que eu vou; eu sou o vigia noturno da Villa". Essa segunda casa em que fiquei na Europa possuía uns 40 quartos com capacidade para três estudantes cada e era um palácio antigo caindo aos pedaços, sem nenhuma conservação. Só tinha banho quente às quartas e sábados, a tradicional higiene, mas havia um jardim espetacular, cuja área é no mínimo equivalente ao parque do Povo ou à fundação Oscar Americano em São Paulo.

Além do jardim, a única coisa marcante nessa casa eram as "festas de arromba" que aconteciam quase todas as noites.

Em Firenze, Eduardo e eu nos inscrevemos na Faculdade de Arquitetura, para fazer o curso de desenho industrial, dado por Pier Luigi Spadolini e seu assistente Giovanni Klaus Köenig. Nos corredores das salas de aula, havia uma fileira de esculturas inacabadas de Michelangelo, que serviam de modelo para os exercícios em classe, e no final desse corredor, lá estava a escultura original de David. Hoje se cobram 50 dólares, com hora marcada, para entrar na fila e admirá-la.

Lembro-me de algumas histórias interessantes que se contavam sobre a cidade. Por exemplo: tirando a Ponte Vecchio, todas as demais foram detonadas na Segunda Guerra. E os italianos resgataram os escombros do fundo do rio e reconstituíram-nas, pedra por pedra, do jeito que eram antes e lá estão até hoje.

Outra que se contava era sobre os palácios Pitti x Strozzi: diziam que a Famiglia Strozzi resolveu construir seu palácio maior que o enorme Palazzo Pitti, fazendo as janelas do tamanho das portas do outro, mas num determinado momento, o dinheiro acabou. E foi quando os Pitti os convidaram para jantar em seu palácio, servindo as iguarias em pratos e talheres de ouro, que eram jogados após o uso...

Enfim, quando começo a falar dessa época, acabo me deixando levar por essas reminiscências, que marcaram a minha vida, e eis-me de novo com o limite de caracteres do texto a me fustigar...

 
   
 
 
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