Resolveu trocar de conceitos, vestes e cidade. De bermudas, camisa aberta e mocassim sem meias, tentou a fama atraindo a atenção da imprensa alternativa carioca. Projetou um teatro mambembe, um utópico plano urbanístico para Ipanema e quiosques de praia inspirados na bossa-nova. Aprendeu gírias novas (dica, duca, sifu) e, no Antonio's, misturou-se com a "patota" do Pasquim. Em conversas regadas por hectolitros de uísque, ria do "peso exagerado" do brutalismo paulista e, com cara séria, lamentava o exílio francês de Oscar Niemeyer. Tentou publicar suas propostas no Pasquim, ofereceu-se para ser entrevistado ou redigir artigos. Os mandarins da "patota" não disseram nem sim, nem não.
Enfurecido, acusou todos os ipanemenses de "vadios", adquiriu terno, gravatas, pasta 007 e obteve (graças à ajuda do primo do genro de um coronel) um cargo de confiança no Banco Nacional de Habitação (BNH). Vislumbrou a fama no potencial "revolucionário" das utopias concretas, patrocinadas por um Estado forte e tecnicamente preparado. Encaminhou estudos a um ministro (que nem abriu o volume), com propostas de novos conceitos habitacionais. Tentou publicar matérias na revista Manchete, ofereceu-se para entrevistas. Em devaneios, pensava ocupar uma chefia de gabinete ou, talvez, tornar-se ministro. Cultivava ideais vastos, mas submergia num cotidiano fútil, até degenerar-se em mais um burocrata que não conseguia compreender a imensa maquinaria de projetos e aprovações de obras na qual estava enfiado. Saiu do BNH em 1979, tão desconhecido quanto entrou.
Outra vez, trocou de roupas e de conceitos. Concluiu que a vanguarda da arquitetura brasileira encontrava-se em Belo Horizonte e adjacências. Num bar de Ouro Preto, Éolo Maia deslumbrou-o ao explicar-lhe a noção venturiana de Galpão Decorado (até aquela tarde, jamais ouvira o nome de Robert Venturi). Muniu-se de citações e, nos bares de BH, passou a questionar a ortodoxia da arquitetura moderna brasileira, que estava "chatíssima, toda igualzinha". Tentou publicar artigos e projetos repletos de referências irônicas na revista Pampulha, ofereceu-se para ser entrevistado. Éolo Maia, Sylvio de Podestá e Jô Vasconcellos não disseram que aceitavam, nem que negavam.
Desiludido com as evasivas mineiras, cultivou saladas práticas e teóricas. Leu Mafredo Tafuri e Bhagwan Rajneesh. Seguiu dietas vegetarianas e emagreceu 14 kg. Foi visto vendendo camisetas em Enea's (depois, reivindicaria a invenção do Berequetê). Cansado da "mercantilização" da arquitetura, decidiu alcançar a fama como pesquisador. Iniciou (e jamais concluiu) uma tese de doutorado na qual pretendia demonstrar as influências da cabala e de Walt Disney na obra de Vilanova Artigas.
No final da década de 1990, iniciou-se nas "possibilidades libertárias" dos softwares de manipulação formal. Publicou seus projetos em sites. Os comentários quase padronizados dos internautas ("Isso aí parece Frank Gehry...") fizeram com que ele iniciasse o século 21 pregando um retorno à pureza formal. Projetou casas que se resumiam a poucos retângulos. Acreditava-se perto da fama, mas Angelo Bucci, Alvaro Puntoni e Marcio Kogan mostraram-se mais criativos...
Após mais essa desilusão, fundou uma ONG. Pretendia construir "enfermarias verdes" e ganhar o Nobel da Paz. Saiu pelo Brasil visitando doentes e hospitais miseráveis. E assim contraiu a infecção que o mataria (fofoqueiros relacionaram a doença com a maionese de um restaurante suspeito). Enquanto o coveiro embutia o caixão na sepultura, um desconhecido orador de circunstâncias prestou uma derradeira homenagem ao arquiteto Josué Ricardo Amoreira: "A História não esquecerá teu nome, José Renato Pereira!"
ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA THOBIAS® é uma criação de Irã Taborda Dudeque, arquiteto e historiador. Suas ficções arquitetônicas começaram em 1998, como um fanzine distribuído na pós-graduação da FAUUSP, e também estão publicadas em http://arquiteturathobias.blogspot.com