Publicidade
 
Login:   Senha:   OK
 
 
 
   
Anarquitetura


Em busca da fama ao óbito anônimo: a infeliz história de José Renato Pereira
A trajetória de um arquiteto

Por Escritório de Arquitetura Thobias®


O arquiteto Josué Ricardo Amoreira julgava-se digno da fama e tentou conquistá-la, de muitas maneiras. Recém-graduado, concebeu residências brutalistas dignas de superlativos: detalhadíssimas, pesadíssimas, complicadíssimas. Em 1971, na 11a Bienal de Artes de São Paulo, convenceu um redator da revista L'Architecture d'aujourd'hui a visitá-las. Irônico e reticente, o tal redator insinuou-lhe que os esplendores das residências disfarçavam incapacidades. Acuado, Josué tentou justificar os defeitos das casas apelando a um "protesto contra o momento atual" (anos depois, quis convencer Marlene Acayaba a incluí-las no livro Residências em São Paulo: 1947-1975; Marlene indagou-lhe: "Quem? O quê?"; a conversa encerrou-se nisso).

Resolveu trocar de conceitos, vestes e cidade. De bermudas, camisa aberta e mocassim sem meias, tentou a fama atraindo a atenção da imprensa alternativa carioca. Projetou um teatro mambembe, um utópico plano urbanístico para Ipanema e quiosques de praia inspirados na bossa-nova. Aprendeu gírias novas (dica, duca, sifu) e, no Antonio's, misturou-se com a "patota" do Pasquim. Em conversas regadas por hectolitros de uísque, ria do "peso exagerado" do brutalismo paulista e, com cara séria, lamentava o exílio francês de Oscar Niemeyer. Tentou publicar suas propostas no Pasquim, ofereceu-se para ser entrevistado ou redigir artigos. Os mandarins da "patota" não disseram nem sim, nem não.

Enfurecido, acusou todos os ipanemenses de "vadios", adquiriu terno, gravatas, pasta 007 e obteve (graças à ajuda do primo do genro de um coronel) um cargo de confiança no Banco Nacional de Habitação (BNH). Vislumbrou a fama no potencial "revolucionário" das utopias concretas, patrocinadas por um Estado forte e tecnicamente preparado. Encaminhou estudos a um ministro (que nem abriu o volume), com propostas de novos conceitos habitacionais. Tentou publicar matérias na revista Manchete, ofereceu-se para entrevistas. Em devaneios, pensava ocupar uma chefia de gabinete ou, talvez, tornar-se ministro. Cultivava ideais vastos, mas submergia num cotidiano fútil, até degenerar-se em mais um burocrata que não conseguia compreender a imensa maquinaria de projetos e aprovações de obras na qual estava enfiado. Saiu do BNH em 1979, tão desconhecido quanto entrou.

Outra vez, trocou de roupas e de conceitos. Concluiu que a vanguarda da arquitetura brasileira encontrava-se em Belo Horizonte e adjacências. Num bar de Ouro Preto, Éolo Maia deslumbrou-o ao explicar-lhe a noção venturiana de Galpão Decorado (até aquela tarde, jamais ouvira o nome de Robert Venturi). Muniu-se de citações e, nos bares de BH, passou a questionar a ortodoxia da arquitetura moderna brasileira, que estava "chatíssima, toda igualzinha". Tentou publicar artigos e projetos repletos de referências irônicas na revista Pampulha, ofereceu-se para ser entrevistado. Éolo Maia, Sylvio de Podestá e Jô Vasconcellos não disseram que aceitavam, nem que negavam.

Desiludido com as evasivas mineiras, cultivou saladas práticas e teóricas. Leu Mafredo Tafuri e Bhagwan Rajneesh. Seguiu dietas vegetarianas e emagreceu 14 kg. Foi visto vendendo camisetas em Enea's (depois, reivindicaria a invenção do Berequetê). Cansado da "mercantilização" da arquitetura, decidiu alcançar a fama como pesquisador. Iniciou (e jamais concluiu) uma tese de doutorado na qual pretendia demonstrar as influências da cabala e de Walt Disney na obra de Vilanova Artigas.

No final da década de 1990, iniciou-se nas "possibilidades libertárias" dos softwares de manipulação formal. Publicou seus projetos em sites. Os comentários quase padronizados dos internautas ("Isso aí parece Frank Gehry...") fizeram com que ele iniciasse o século 21 pregando um retorno à pureza formal. Projetou casas que se resumiam a poucos retângulos. Acreditava-se perto da fama, mas Angelo Bucci, Alvaro Puntoni e Marcio Kogan mostraram-se mais criativos...

Após mais essa desilusão, fundou uma ONG. Pretendia construir "enfermarias verdes" e ganhar o Nobel da Paz. Saiu pelo Brasil visitando doentes e hospitais miseráveis. E assim contraiu a infecção que o mataria (fofoqueiros relacionaram a doença com a maionese de um restaurante suspeito). Enquanto o coveiro embutia o caixão na sepultura, um desconhecido orador de circunstâncias prestou uma derradeira homenagem ao arquiteto Josué Ricardo Amoreira: "A História não esquecerá teu nome, José Renato Pereira!"

ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA THOBIAS® é uma criação de Irã Taborda Dudeque, arquiteto e historiador. Suas ficções arquitetônicas começaram em 1998, como um fanzine distribuído na pós-graduação da FAUUSP, e também estão publicadas em http://arquiteturathobias.blogspot.com

 
   
 
 
Publicidade


Relacionados
 

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Anarquitetura :: ed 218 - 2012
O encontro post mortem de Mies, Wright e Le Corbusier

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Entrevista :: ed 218 - 2012
Zaha Hadid fala sobre suas raízes e o processo de criação de suas obras

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Brasil :: ed 218 - 2012
Edifício de 1950 é transformado e modernizado com projeto de Spadoni AA, em São Paulo

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Cenário :: ed 218 - 2012
Cenário

 
 
digital aU
 
 
 
     
 
Notícias  
 

16/05/2012
Região do Porto de Suape, em Pernambuco, terá cidade planejada

16/05/2012
Linha Lego Arquitetura terá miniatura do portão Sungnyemun, da Coreia do Sul

15/05/2012
Arquitetos querem concurso para projeto do metrô no Rio Grande do Sul

15/05/2012
Iphan aprova a construção de reserva arqueológica em Rondônia

 
 
lojaPini
OK
 
TAGs
Entender TAG
2012 Agenda Arquiteto Arquitetos Arquitetura Brasil CBIC concreto Concurso de Emprego Engenharia FGV Materiais Obra pesquisa profissionais Projeto Rio de Janeiro São Paulo
 
 
Guia da Construção