Apesar do terreno estreito e longo, casa criada por CR2 Arquitetura e FGMF, em São Paulo, dispõe de espaços integrados e naturalmente iluminados De um pequeno terreno a uma residência ampla. Os arquitetos subvertem a tradicional ordem dos cômodos, reorganizam a planta, rebaixam a cozinha e constroem uma residência cheia de luz, verde e espaço
Quando se fala em Jardim Europa, bairro residencial da cidade de São Paulo, logo se pensa em casas de dimensões generosas. Não é o caso da residência dos arquitetos Clara Reynaldo e Lourenço Gimenes, do CR2 Arquitetura e FGMF Arquitetos, respectivamente - autores e moradores do projeto. A casa incrustada entre duas empenas em um lote de apenas quatro metros de frente e com poucas faces iluminadas traz soluções simples e certeiras.
Já na entrada, a residência chama atenção para si: não tem portão. Nos dias de hoje, a falta de barreiras entre ambiente privado e público surpreende. "Quisemos dar um pouco de nosso espaço para a cidade, como uma gentileza urbana", complementam.
Entrando no nível térreo por uma fachada negra - aliás, um dos únicos elementos de cor escura da casa - o visitante é recebido por uma brancura extrema, que vai do piso de resina de poliuretano às paredes, estendendo-se pelo forro e móveis. A obsessão pelo branco não é puramente formal, embora a busca por um espaço simples fosse uma premissa do partido: é, antes de tudo, uma estratégia para refletir a luz internamente, levando-a a todos os pontos da casa. "Foi uma escolha mais que estilística, foi estratégica", explica Lourenço.
A ocupação do lote, por questões legais, é a mesma da casa original adquirida pelos arquitetos - que, malconservada, teve de ser demolida para que a nova se erguesse. Com a projeção dos dois blocos no papel, a dupla resolveu a questão unindo-os em torno de um jardim - e, como se estivesse recortado no volume construído, o jardim possibilita a fluidez visual da casa, inclusive entre os andares, com seus três planos transparentes generosamente banhados pelo sol.
O térreo é um espaço comum de sala de estar, jantar e cozinha, estando esta última à direita de quem entra, e em uma cota rebaixada em relação ao espaço destinado à sala, aumentando consequentemente o pé-direito. A solução partiu de uma exigência: que a sala estivesse integrada ao jardim de portas envidraçadas retráteis. Só sobrou à cozinha estar voltada para a fachada e, por isso, ser o ambiente da entrada. A diferente maneira de evidenciar a cozinha venceu a opção do primeiro impulso: escondê-la. Destacá-la na forma e integrá-la espacialmente passou de obstáculo a oportunidade de projeto. Daí seu rebaixamento em 75 cm que propiciou, ainda, um desenho inusitado: o piso na cota da sala continua como uma mesa de cozinha.
Por estar abaixo do nível da rua, foi feito um tratamento impermeabilizante análogo ao que se faz em piscinas, com manta asfáltica (4 mm). O tratamento previne bolhas no piso de resina, além de umidade e infiltrações, comuns naquela área, onde o lençol freático é bastante superficial.
Esse espaço branco e amplo integra-se ao jardim onde descansam as bicicletas do casal, junto a mais uma solução: uma parede verde. Constituída por blocos cerâmicos pré-moldados e pintados com tinta impermeabilizante, a parede verde abriga espécies diversas de plantas, entre elas avenca, moreia, madressilva e minibromélia. O jardim também tem seu papel na eficiência da casa: além de representar uma área permeável superior à exigida por lei, cria uma zona de baixa pressão. O ar, resfriado, cruza a sala em direção à janela da cozinha, garantindo condições térmicas adequadas para a maior parte do ano.
Já no bloco menor, a escada plissada e de degraus soltos de chapa metálica estampada conecta os pavimentos. Aqui, tudo o que rodeia o átrio do jardim possui fechamento de vidro, para que os ambientes tenham iluminação e ventilação naturais. Mas claro, com cuidado: neste bloco, os arquitetos especificaram um brise, na abertura que dá ao jardim. São brises fixos em malha de chapa expandida, que funcionam também como guarda-corpo. O mesmo material do brise aparece no piso da passarela metálica que faz a circulação horizontal no pavimento íntimo e que permite a transparência necessária para que o grande painel de ladrilhos cerâmicos instalado em toda a extensão da empena sudeste possa ser visto nos dois pavimentos. Os ladrilhos, do artista plástico Fabio Flaks, possuem desenhos iguais, mas com peças dispostas em diferentes sentidos.
Ainda no pavimento superior, acima da sala/cozinha fica o contêiner da área íntima, com duas suítes, e revestido de lambris de alumínio - revestimento que aparece tanto no exterior, como fachada, quanto no térreo, como forro.
Subindo mais um andar, chega-se a uma aconchegante sala de TV e à cobertura-terraço, que estende a área externa da casa e combina deck e ecotelhado, um sistema formado por módulos alveolares de material plástico reciclado, que recebem um substrato leve nutritivo e plantas. Abaixo dos módulos há a "galocha", uma membrana para retenção de água e nutrientes, que, por sua vez, está sobre uma membrana antirraízes. O ecotelhado e o deck sombreiam as telhas metálicas atirantadas na estrutura, contribuindo para o conforto térmico de toda a casa.
O terraço dá acesso para a manutenção dos equipamentos de ar-condicionado e aquecimento de água, protegidos por uma grade. Mas é, principalmente, um espaço de lazer que complementa o jardim do térreo. Para o casal, que vivia em apartamento, qualquer centímetro quadrado ao ar livre foi uma grande conquista.
O sistema de construção seca foi empregado largamente - a parcela de concreto da construção ficou apenas na fundação e no contrapiso armado. Entre os sistemas especificados, a estrutura metálica aparece com esbeltas vigas metálicas que cruzam o espaço e se apoiam em pilares embutidos nas empenas laterais. Há, ainda, paredes de gesso e placas cimentícias, lajes de painel de madeira, passadiços metálicos, grandes caixilhos e pisos de resina ou deck flutuante. Para a base do piso do primeiro pavimento, foi utilizado painel wall (duas placas finas cimentícias com o miolo preenchido de madeira sarrafeada) sobre a estrutura metálica, para posterior aplicação do piso de placas de borracha.
Foram utilizados três tipos de fechamento seco, um para áreas secas (chapa de gesso), outro impermeabilizado para áreas úmidas (chapa verde) e para áreas molháveis (placa cimentícia). Para o isolamento termoacústico nas paredes de drywall e nos forros, foram usadas lã de rocha e lã de vidro, respectivamente.
Das pequenas casas japonesas e holandesas, a casa 4 x 30 utilizou a união da criatividade com a funcionalidade para espaços diminutos e a subversão do programa de uma casa tradicional. Apesar de referências estrangeiras, Lourenço e Clara a definem como bem brasileira, aproveitando-se de nosso clima para privilegiar a iluminação e ventilação naturais.
EXITS FOR LIGHT The residence of architects Clara Reynaldo and Lourenço Gimenes, from CR2 Arquitetura and FGMF Arquitetos - authors and residents in the project - is incrusted between two gables in a lot measuring only 4 meters in front and with few illuminated facades. But the project has simple and precise solutions to amplify the space. When entering the ground level, the visitor is greeted by an extreme whiteness, which goes from the polyurethane resin to the walls, extending to the ceiling and furniture. The obsession for what is, above all, a strategy to internally reflect light, taking it to all parts of the house. The occupation per lot, due to legal issues, is the same as the original house - which, poorly maintained, had to be demolished. With the projection of the two blocks in paper, the duo solved the problem by uniting them around a garden -making possible the visual fluidity of the house, also between the floors, with its three transparent planes generously bathed by sunlight. The ground floor is a common space for a living room, dining room and kitchen, the latter at the right side of the entering visitor, and at an elevation lowered in 75 cm relative to the space destined for the living room. The different manner of high-lining the kitchen won over the first impulse option: to hide it. At the top floor is the intimate area container, lined with aluminum - a coating that appears at the outside as in the facade, as well as in the ground floor, as a ceiling. Climbing one more level, one reaches the penthouse-terrace, extending to the external area of the house and combines a deck and the ecological roof, which gives shade to the stayed metal tiles structure and contributes to the house''s thermal comfort.
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