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Internacional


Projetada por Josep Lluís Mateo para área decadente de Barcelona, na Espanha, Filmoteca da Catalunha se funde ao entorno que pretende regenerar
Em bairro central e decadente de Barcelona, conhecido por ser um caldeirão social e cultural, edifício da Filmoteca busca se mimetizar com o entorno. Sua presença forte, mas não agressiva, incentiva a criação de um novo local de uso público. A ideia é que o edifício seja absorvido pela área que o circunda e que a melhore sem perturbar nem anular sua complexa heterogeneidade

Por Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste Foto Adrià Goula




"As ideias se produzem e se encontram na ação." A frase é de Josep Lluís Mateo, arquiteto de Barcelona que se distingue pela permanente atenção e reflexão sobre as dinâmicas que formam a realidade - e cujo trabalho obstinado chega até ao próprio ato de construir.

Em uma conversa com Mateo sobre qualquer de seus projetos, é fácil ver convergir de forma fluida os detalhes técnicos do desenho e da construção, unindo-os a questões subjetivas sobre a essência do projeto, e a relação da construção do edifício com as sinergias arquitetônicas do presente no qual se imbrica. Confluência de fatores que manifesta as complexidades que um edifício alberga e gera, e que o situam em diálogo e resistência com a realidade.

A construção da nova sede da Filmoteca da Catalunha, em Barcelona, pode ser vista como um reflexo do pensamento de Mateo sobre como a construção implica, inevitavelmente, destruição. E a ideia de como a resistência talvez seja necessária para criar um gérmen que conduza ao diálogo e à assimilação.

A construção da Filmoteca enfrentou a complexidade inerente a seu enclave urbano: o distrito de Raval, no centro histórico da cidade, um caldeirão social heterogêneo com populações local e imigrante, novos empreendimentos comerciais de alto nível e pequenos comércios ao lado da pouco dissimulada presença de prostituição.

Nesse contexto de cidade antiga e desordenada, Mateo propôs um edifício que busca se unir ao entorno escolhendo se expressar como "pura estrutura, sem revestimentos ou acabamentos". Se o achado de antigos vestígios arqueológicos durante os trabalhos de preparação do terreno supôs um desses momentos de destruição e resistência (o que adiou o início das obras), a ideia das ruínas ("as ruínas mostram a estrutura dos edifícios", diz Mateo) parece ter definido o conceito material para a fachada de concreto - que também é estrutura - e que o arquiteto considera "família dos deteriorados muros vizinhos que mostram, com seus pedaços descascados, a massa central original".

As fachadas leste e oeste foram configuradas em balanço, para outorgar amplitude às ruas onde estão. Já as longitudinais são também estruturais, e permitem liberar de pilares os dois subsolos, onde estão as salas de projeção. Entre cada par de paredes foram dispostas vigas transversais protendidas que suportam convencionais lajes maciças.

As duas fachadas longitudinais geram a estrutura do edifício e definem a ordem espacial de seu programa: sem suportes intermediários da estrutura, permitem a criação de transparências que facilitam a penetração da luz exterior que chega pelo térreo. Faz presente, deste modo, a metáfora da importância da luz como fundamento do cinema, um conceito-chave da identidade e função da Filmoteca.

O volume do térreo se ilumina pelas aberturas panorâmicas que emolduram a paisagem urbana imediata. "Como uma tela de CinemaScope", compara o arquiteto, lembrando da tecnologia criada em 1953 para a gravação de filmes widescreen.

A partir do térreo, além do movimento da luz, faz-se presente o movimento dos visitantes: agora, de descida e subida nos volumes de planta retangular. A descida conduz à escuridão das salas de projeção, em um volume soterrado - aqui também fica o pavimento das salas de exposições temporárias e aulas de formação. O uso de espelhos, vidros e superfícies claras traz luz a esse caminho de descida e aos espaços subterrâneos.

Contrastando com o volume inferior, a subida a partir do hall até os pavimentos superiores, no volume que se alça sobre a praça, é acompanhada pela luz natural que chega pela claraboia. Aqui ficam biblioteca, uma sala de exposições permanentes, áreas de administração e gestão.

A proposta do exterior e do interior do edifício como um conjunto de filtros e telas que articula a luz é fundamental para criar uma forma de mediação e de interação do edifício com as construções circundantes da cidade antiga.

No exterior, foram desenvolvidos desenhos com arame e chapas metálicas perfuradas que filtram a luz natural e garantem a intimidade interior, permitindo que os ocupantes do edifício possam ver sem ser vistos. Algo que pode ser interpretado, por que não, como um voyeurismo sutilmente comparável com o do espectador em frente a uma tela de cinema. Os filtros de luz no interior são vidros coloridos que dividem o espaço, e que Mateo compara com os filtros e os diafragmas das câmaras cinematográficas para matizar a intensidade de cor da luz natural.

Dentro de uma análise sobre o desenvolvimento urbano de Barcelona na última década, o edifício da Filmoteca se coloca como a manifestação da necessidade da mudança na forma como se pensam o sentido e a função da arquitetura para essa cidade.

O modelo exitoso da Barcelona olímpica, que se prolongou na euforia de um modelo urbanístico dominado por grandes obras assinadas por arquitetos-estrela, entrou em colapso e gerou a crescente - e justificada - compreensão da arquitetura como uma mera ferramenta de poder e de ambição política. Uma impressão que a crise econômica não fez senão agravar.

É de se desejar - e isso fica implícito na vontade de Josep Lluís Mateo - que o edifício seja absorvido pela área que o circunda e que a melhore sem perturbar nem anular a complexa heterogeneidade implícita em seu caráter.

A motivação que se colocou na construção do edifício caminha em um sentido de transformá-lo em dinamizador dessa parcela social e cultural da cidade e, por que não, mudar o rumo de uma Barcelona que esteve, em muitas ocasiões, cega pelo seu próprio ego.

 

DESTRUCTION AND RESISTANCE
The new headquarters of Catalonian Film Library building, in Barcelona, by JosepLluísMateo, faced a complexity inherent to its urban enclave: the Raval district, a social melting pot extremely heterogeneous with local and immigrant population, new high level commercial ventures and small stores next to little dissimulated prostitution. Here, Mateo proposed a building seeking to join its surroundings and choosing to express itself as "pure structure, without coatings or finishes". The ground floor is illuminated by the panoramic openings that frame the immediate urban landscape. From there, one begins the slow descent into the darkness of the lower levels, where the floor holding the temporary exhibit halls and the formation classes is located. Contrasting with the lower volume, the ascent from the hall to the top floors is accompanied by natural light penetrating­ through the skylight over the patio. Outside, they deve­loped drawings in wire and perforated metal blades that filter natural light and ensure privacy. It is desired - and this is implicit in JosepLluísMateo's wishes - that the building is absorbed by the surrounding area and that it enhances it without disturbing or annulling the complex heterogeneity implicit in its character.



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