Os defensores do desconstrutivismo genuinamente brasileiro revoltam-se com a crescente desnacionalização da nossa arquitetura filosoficamente frívola. Por exemplo: durante décadas, o Almanaque Biotônico Fontoura manteve uma atitude vigilante e nacionalista na defesa do desconstrutivismo arquitetônico tubinanbáguarani, publicando projetos de ocas esvaziadas do sentido clássico da arquitetura e de tabas que desestabilizaram as noções renascentistas de perspectiva. Quanta brasilidade! Quanta pujança! Agora, porém, mesmo o Almanaque assume posturas revisionistas. Chega a atribuir a gênese do desconstrutivismo a arquitetos como Peter Eisenman, Daniel Libeskind ou Rem Koolhaas...
Diante desse disparate, torna-se necessário recordar fatos ocorridos durante os governos dos Presidentes Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Assim, honraremos o verdadeiro criador do desconstrutivismo: Claujatar Prosca, do Escritório de Arquitetura Thobias®.
Juscelino Kubitschek foi prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e, depois, presidente da República. Jânio Quadros foi prefeito de São Paulo, governador do Estado de São Paulo e, depois, sucessor de JK na presidência da República. Qualquer estudante de arquitetura sabe da profícua ligação entre JK e Oscar Niemeyer. Poucos arquitetos sabem da ligação de Jânio Quadros com Claujatar Prosca.
Havia grandiosas diferenças nas relações entre os dois presidentes e os seus arquitetos. Niemeyer fornecia projetos arquitetônicos para JK. As fontes conceituais de Niemeyer encontram-se na arquitetura do Iluminismo e na reinterpretação criativa dos cinco pontos definidos por Corbusier. Não havia uma ligação intrínseca entre as posturas políticas de JK e a arquitetura de Niemeyer. Jânio e Claujatar, ao contrário, desenvolveram uma metodologia comum, na qual a atitude política convertia-se em princípio arquitetônico. Jânio estabeleceu um governo não retilíneo, fragmentado, não linear. Fingia dirigir-se à esquerda, a fim de parecer que rumava à direita, mas ia mesmo era de revestrés, curvando-se em roscas, empurrado para o poente, estilhaçando-se para cima e para leste. Claujatar aplicou tal método à arquitetura. Projetou volumes cujas arestas seguiam para a direita, parecendo rumar para a esquerda, mas iam mesmo era de revestrés; edifícios cujas forças estruturais desabavam para o poente; cujas paredes seguiam trilhas não lineares; cujas coberturas fragmentavam-se; cujos estilhaços de pisos curvavam-se para baixo e para estibordo.
Na manhã de 27 de julho de 1961, o Presidente Jânio acordou embaixo do sofá do Palácio da Alvorada e inquiriu Claujatar, que boiava no espelho d'água: "Excelso Arquiteto: construíram este Palácio, desconstru-lo-íamos nós?" Apesar do delirium tremens que o afligia, o senso de marketing de Claujatar captou, na pergunta, um nome para a postura arquitetônica que ele e o presidente estavam criando: desconstrução.
Infelizmente, a presidência de Jânio Quadros extinguiu-se no mês seguinte. Sua renúncia interrompeu um novo ciclo vanguardista da arquitetura brasileira. Felizmente, ocorreu um deslocamento. As múltiplas possibilidades da criação política-projetual de Claujatar realizaram- -se no urbanismo. Inspirados nele, os governantes do Brasil, da década de 1970 até o final do século 20, implementaram políticas urbanísticas fragmentadas, não lineares, que relativizaram as noções de forma e de uso, estabelecendo caos imprevisíveis desorganizados a partir de desequilíbrios construtivos e desacertos funcionais. Libeskind, Eisenman e o Coop Himmelb(l)au falam de caos. Mas o que é o caos deles comparado com o vale-tudo individualista das nossas cidades sem planejamento e com intervenções claudicantes do Estado?
Mas certa imprensa nacional insiste na divulgação alienante dos desconstrutivismos vindos de alhures. Recentemente, o Anuário Cívico-Cultural da 5a Região Militar publicou projetos da arquiteta iraquiana Zaha Hadid. É revoltante! Pois isso leva nossos jovens arquitetos a admirar servilmente essas formas islâmicas, como meros lacaios do imperialismo cultural das Arábias. Devíamos mandar Miss Hadid tomar no Foucault e defender nossa própria inocuidade projetual, tão brejeira, tão morena, tão solar. Em vez de louvarmos os microcaos estrangeiros, devemos nos ufanar da esbórnia nacional, mais vigorosa, mais autêntica. Viva Claujatar Prosca! Viva o desconstrutivismo brasileiro!
ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA THOBIAS® é uma criação de Irã Taborda Dudeque, arquiteto e historiador. Suas ficções arquitetônicas começaram em 1998, como um fanzine distribuído na pós-graduação da FAUUSP, e também estão publicadas em http://arquiteturathobias.blogspot.com
| |
O
fórum da
aU é um espaço livre para que nossos leitores
debatam idéias. Use-o de forma adequada. Mensagens
ofensivas, impróprias ou que contenham palavras de
baixo calão serão excluídas. Seus comentário
serão exibidos juntamente com o nome de seu cadastro
no portal Pini. |
|