aU | Arquitetura e Urbanismo
 


COPENHAGUE NA VIRADA DO SÉCULO: UMA CIDADE PARA PEDESTRES
Arquitetura
Espaço Aberto


Sheila Ornstein
é vice-diretora da FAU-USP



Cravada no Mar do Norte, agregando ilhas e canais, a cidade portuária de Copenhague reúne cerca de 1,35 milhão de habitantes que ocupam os quase 1.150 milhões de m2 do território. A capital da Dinamarca tem sido (injustamente) pouco descrita e analisada no tocante à evolução de sua arquitetura e do seu desenho urbano. Ofuscado talvez pela exuberância finlandesa de Alvar Aalto, é relativamente restrito o conhecimento dos brasileiros sobre a (boa) arquitetura dinamarquesa, especialmente aquela encontrada recentemente nos edifícios e espaços públicos.
Arne Jacobsen (1902-71), arquiteto da fase moderna internacional, também com registros marcantes no campo do projeto de móveis e utensílios domésticos, talvez seja um dos poucos profissionais locais merecedores desse reconhecimento por parte dos estudiosos brasileiros. O edifício SAS (Scandinavian Airlines) Royal Hotel é a síntese do pensamento de Jacobsen: ainda o prédio mais alto do centro da cidade tem 22 pavimentos, os dois primeiros projetantes destinados à agência de viagens e terminal da SAS e os demais, recua-dos, para os apartamentos de hóspedes. Com seus painéis cinza-esverdeados, a obra é considerada a primeira referência dinamarquesa à arquitetura moderna, lembrando a Lever House de Skidmore, Owings & Merril, de Nova York. Foi também a resposta da época a um programa arquitetônico complexo, para área densamente ocupada e tráfego intenso de veículos. Na linha da "arquitetura total", Arne desenhou também vários móveis para o interior do edifício, associando simplicidade e funcionalidade, quase que estabelecendo uma relação com a arquitetura tradicional japonesa.

DO NEOCLASSICISMO AO FUNCIONALISMO
Em Copenhague, a transição do neoclassicismo para o funcionalismo teve vários matizes marcados pelo desenvolvimento da arquitetura internacional atrelada aos princípios do desenho industrial. Essa mudança, de estilo e concepção, foi gradual, sem descaracterização do desenho urbano, dos edifícios históricos e da coesão da massa edificada da cidade. A década de 30 foi rica em exemplos, que renovados e restaurados permanecem em uso até hoje. É o caso do edifício de escritórios "Vesterport", projetado por Paul Baumann e Ole Falkentorp para a companhia ferroviária. Concebido dentro do princípio inovador (para a época) do funcionalismo, ostenta fachadas leves, de cobre patinado, com coloração final verde-água, a qual pode ter nascido naturalmente, em função das condições atmosféricas locais ou eventualmente do patinado artificial, por meio dos métodos anódicos surgidos em 1929.
Todavia, a marca mais forte do funcionalismo vinculado ao ideal de liberdade criativa, industrialização e utilização do potencial de novas formas, materiais e sistemas estruturais, ocorreu no setor da construção habitacional, produtor de diversos edifícios de apartamentos com seus pequenos, singelos e repetitivos balcões, tal como no conjunto "Vertersohus" dos arquitetos Kay Fisker & C.F. Moller ou no caso do edifício de uso misto - agência do correio e habitações - projetado por Edvard Thomsen, inspirado na Bauhaus.
Nesse mesmo período, a cidade começa a estabelecer um sistema contínuo de parques e lagos, integrados às áreas urbanas, sistema consolidado no contexto do plano regional do pós-guerra (1947), denominado "Plano dos Cinco Dedos" (Lind & Lund, 1996). Nesse momento, os parques do século XIX, como o Orteds, são incorporados ao sistema.
O movimento moderno, associado à execução em massa de habitações de interesse social, chega ao seu ápice no início da década de 70. Nas décadas de 70 e 80 passa a vigorar a escala de menor porte, a idéia de cada apartamento estar associado a um jardim, da vizinhança e da inserção no contexto urbano. Surge, então, uma fase de experimentalismo, sobretudo de materiais e de sistemas construtivos, com ênfase nas décadas de 80 e 90, para atender a clientes privados oriundos dos fundos de pensão, segundo processos cooperativos de produção habitacional.
Tratava-se de uma
resposta à necessidade de aumento de qualidade em relação à habitação pública "oficial", massificada, a qual passa a ser marginalizada. Tem-se, por exemplo, o conjunto habitacional Dalgas Have, destinado ao Fundo de Pensão da Sociedade Dinamarquesa dos Engenheiros, próximo ao centro urbano, com 16 torres, 500 apartamentos e diversos elementos coletivos de infra-estrutura. Ou, ainda, o conjunto habitacional para a Terceira Idade, destinado ao Fundo de Pensão dos Advogados e Economistas, considerado uma proposta alternativa à visão institucional dos abrigos para idosos: seu partido arquitetônico contempla necessidades individuais e coletivas.

QUALIDADE URBANA, QUALIDADE DE VIDA
Desde a segunda metade do século XX, a cidade tem sido objeto de diversas transformações. Atualmente, os percursos entre habitação, locais de lazer, serviços, trabalho - integrantes do cotidiano dos habitantes - podem ser feitos a pé ou de bicicleta. Preservam-se as virtudes dos antigos edifícios, permanentemente renovados ou restaurados, constroem-se novos, sobretudo na área portuária, sempre considerando a opinião dos moradores, em debates públicos. E adotam-se princípios da ecoarquitetura no rastro das mudanças das cidades européias de médio e grande porte. Dentre os exemplos mais contundentes dessas transformações está o resgate das ruas de pedestres e dos espaços públicos em geral.
Em 1962 surge a primeira via de pedestres, a Stroget, até hoje a principal rua comercial da cidade, que desde então está em processo contínuo de renovação e de revitalização. Segundo Gehl & Gemzoe que, em 1996, fizeram um estudo para avaliação da cidade, a rua ainda é um dos lugares preferidos para estar, ver e ser visto. Desde os anos 60 têm ocorrido a redução, no centro urbano de Copenhague, das vias e estacionamentos destinados aos veículos e o aumento das áreas (vias e praças) destinados aos pedestres e aos ciclistas. Considerando os desejos e as necessidades da população usuária (moradores, estudantes e turistas), o planejamento municipal progressivamente aumentou as áreas de pedestres de 15 mil m2 em 1962, para 100 mil m2 em 1998. Nesses espaços públicos tem ocorrido a ampliação incentivada de serviços, lazer, manifestações culturais e artísticas, contemplação de monumentos e exibição de esculturas. Pequenos quiosques com frutas, lanches e outros serviços, como bancas de jornais, podem ser encontrados em todas as praças centrais.

RUAS PARA CAMINHAR E PEDALAR
O centro urbano de Copenhague corresponde ao centro histórico medieval ampliado, com um raio de influência de aproximadamente 1 km, distância confortável para deslocamentos a pé ou de bicicleta. Copenhague tem atualmente cerca de 3,7 km de vias exclusivas para pedestres, sendo a 5ª em hierarquia com essa qualidade. A 1ª é Zurique (Suíça) com cerca de 8,4 km.
A criação de ruas de pedestres em Copenhague cessou em 1973 e, desde então, a prefeitura concentra esforços na renovação e nos melhoramentos das praças (tratamento de pisos, acessibilidade, infra-estrutura etc.). Comparativamente a outras cidades semelhantes da Europa, Copenhague tem baixa densidade residencial no centro urbano (59 hab/ha). Amsterdã, por exemplo, tem praticamente o dobro (108 hab/ha). Porém, apresenta uma significativa diversidade de serviços (hotéis, bares, restaurantes e lojas) distribuídos homogeneamente na área central, permitindo seu funcionamento até pelo menos as 23 horas.
As praças, por sua vez, são atualmente os nós principais da rede contínua de espaços públicos da cidade. Entre aquelas renovadas na década de 90, destaca-se Amagertov, considerada o coração da cidade e a praça com 27 mil m2, onde se situa o palácio do governo. No processo de renovação da "Radhuspladsen", todo o tráfego pesado de veículos que a cortava foi removido, especialmente os ônibus, transferidos para uma via próxima, atrás do pavilhão cultural e turístico, recém-inaugurado. Essa rede de espaços públicos é apoiada por diversos elementos básicos
de infra-estrutura, como telefones públicos e locais específicos para estacionamentos de bicicletas.
No que diz respeito às vias para ciclismo, Copenhague tinha, em 1996, 293 km, o que significa um aumento de 25% no que diz respeito à quantidade desse tipo de via existente em 1970. Estima-se que cerca de 1/3 dos trabalhadores fazem o deslocamento moradia-trabalho-moradia de bicicleta. Por outro lado, a prefeitura municipal introduziu um sistema público de bicicletas, que funciona à base de moedas, como no caso dos carrinhos de supermercado. Segundo Gehl & Gemzoe, existiam, em 1995, mil bicicletas desse tipo e 125 pontos de estacionamento/retirada/devolução na cidade e uma previsão para dobrar o número dessas bicicletas em 1996. A idéia principal, aceita plenamente pela população, é que a utilização da bicicleta (em vez do carro), no centro urbano, cria uma relação "saúde do usuário versus qualidade ambiental" muito interessante e comprovadamente eficaz.

CIDADE DAS ÁGUAS: RENOVAÇÃO DAS DOCAS
Na esteira de outras importantes cidades européias cuja história se confunde com a própria história do seu porto, seja marítimo, seja ribeirinho, a partir da década de 80, com base em debates públicos, no planejamento municipal, em investimentos privados e na transferência das indústrias para outras áreas específicas, tem havido a reorientação de usos da área portuária (docas), mais próxima do centro urbano. Assim, o transporte de cargas e de passageiros foi transferido para o Norte e o Sul da cidade, visando não só à modernização tecnológica dessa função mas também a internacionalização dos 43 km de áreas portuárias mais próximas ao centro, as quais têm sido objeto de inúmeras intervenções para transformação de depósitos em edifícios de escritórios e de apartamentos, para a renovação dos espaços públicos integrantes da rede urbana e para absorver os projetos voltados para o turismo, lazer, educação e atividades culturais.

RENOVAÇÃO URBANA
Dentre os grande projetos deste final de século, voltados à revitalização e recuperação da área portuária, três estão aqui destacados por suas qualidades de desenho urbano, arquitetônico e funcional.
O primeiro, a Company House, integra um conjunto de edifícios de escritórios e de apartamentos com seis pavimentos com um edifício de escritórios de 12 pavimentos. Trata-se de uma combinação harmoniosa de formas retilíneas e curvas, diferentes materiais e sistemas construtivos, elementos que procuram preservar a escala de pedestre e a relação de vizinhança, sobretudo no que respeita ao setor residencial, com estruturas metálicas high-tech e panos de vidro no caso dos escritórios. Procura-se também estabelecer uma relação intimista no desenho urbano "cul-de-sac" interno, mas fixando, externamente, uma forte relação com as águas.
O segundo, a Casa do Arquiteto, projeto solicitado pela Caixa de Pensão dos Arquitetos, é um delicado "infill" junto a outro edifício de tijolos, destinado a exposições de arquitetura, antigo depósito renovado. A Casa do Arquiteto foi feita com estrutura metálica, associada a brises e diversos elementos internos em madeira. Abriga o Sindicato dos Arquitetos e a Danish Architectural Press.
Por último, o Anexo da Biblioteca Real foi projetado por Schmidt, Hanner & Lassen e em julho último estava em fase final de construção. O edifício principal foi aberto ao público em 1911 e esse anexo, junto a ponte Christians, configura-se em uma "nova" promenade associada ao atual projeto cultural para a cidade. O anexo, denominado de "Diamante Negro", tem sete pavimentos e é revestido com granito negro polido. Terá um auditório para concertos com 600 lugares, livraria, café, restaurante e pequenos espaços para exibições artísticas. Liga-se ao edifício antigo por via aérea (três passarelas para pedestres) acima da via que margeia o porto.

VIRTUOSISMO, EQUILÍBRIO E ALGUMAS TRANSGRESSÕES
Desde a década de 80, como vimos, o centro de Copenhague tem sido palco de diversas transformações
, combinando de modo equilibrado virtuosismo dos edifícios, espaços públicos de outros séculos com edifícios "infills", renovações e recuperações de espaços públicos, recheados de qualidades arquitetônicas, urbanísticas, construtivas, visuais, estéticas. Tecnologia de alto nível associada ao conforto ambiental, tendo como cliente preponderante o usuário final, o pedestre, são critérios perceptíveis nas diversas intervenções, voltadas à qualidade de vida, ao bem-estar no meio urbano. Essas características impressionam arquitetos, urbanistas e leigos.
Verifica-se contudo que Copenhague apresenta reduzidos espaços públicos que oferecem, tal como em outras cidades européias equivalentes, coberturas como arcadas, elementos de transição ou pergolados para proteção temporária contra intempéries, em uma cidade que pode ter eventuais temperaturas muito elevadas no verão, chuvas, ventos, além de um rigoroso inverno (temperaturas médias de -4º C). Outros espaços públicos são inóspitos e pouco convidativos - embora com evidente qualidade construtiva - como aquele ao redor do dramático edifício do Banco Nacional da Dinamarca, projetado por Jacobsen, Dissing + Weitling A/S no período 1965-1971.
Alguns edifícios destoam do conjunto, por sua estética discutível, num pseudo estilo neoclássico, para abrigar salas de cinema, tal como aquele próximo ao Parque Tivoli e a Radhuspladsen. O "Diamante Negro", por sua vez, surge como uma possível transgressão proposital, com relação às demais intervenções harmoniosas entre si, quase que contidas, numa tentativa política, de proporcionar maior destaque a Copenhague no contexto cultural das cidades européias relevantes. Todas essas ações e intervenções devem continuar no século XXI, mas o monitoramento continuado dos impactos socioambientais dessas iniciativas e os debates públicos dos futuros projetos devem garantir a Copenhague a permanência no elenco das cidades européias que oferecem elevada qualidade de vida.
REFERÊNCIAS: 2G INTERNATIONAL ARCHITECTURE REVIEW Nº 4. Arne Jacobsen - Public Buildings. Barcelona, Espanha: Editorial Gustavo Gili, S.A., 1997; FLEMING, John; HONOUR, Hugh & PEVSNER, Nikolaus, Dictionary of Architecture. Middlesex, England: Penguin Books Ltd, 1980; FRAMPTON, Kenneth. Modern Architecture: A Critical History. London, England: Thames and Hudson Ltd, 1992 (3ª edição); GEHL, Jan & GEMZOE, Lars. Public Spaces - Public Life. Copenhague, Dinamarca: The Danish Architectural Press/The Royal Danish Academy of Fine Arts - School of Architecture Publishers, 1996; GEHL, Jan. Creating a human quality in the city. In: Proceedings of EDRA (Environmental Design Research Association) 29 Conference - People, Places and Public Policy. Edmond, Oklahoma: EDRA, 4-8 de março, 1998 p. 21; LIND, Olaf & LUND, Annemarie. Copenhague Architecture Guide. Copenhague, Dinamarca: Arkitektens Forlag, 1996; THE DANISH ARCHITECTURAL PRESS. Copenhague Spaces. Copenhague, Dinamarca: Arkitektens Forlag/The Danish Architectural Press, 1996.